O alho aqui, quando se frita, fica azul. Primeiro pensei que fosse o fundo da panela a colar no alho. Depois, procurei no scholar. E a cozinha do seculo 21.
Segundo uns tipos chineses ou asiaticos o que acontece e que, quando o alho e velho, a fritura muda a sua cor.
Isto deve querer dizer que ando a comer alho centenario... Nao me espanta. A minha universidade e feita por ricos para ricos e por isso aqui comer aqui e bom e relativamente barato. O resto de pittsburgh, supermercados incluidos, e simplesmente americano.
E facil perceber porque e que 1/3 dos americanos sao obesos (ie, precisam de dois lugares do autocarro) e 1/3 e overweight. Para uma portuguesa onde a fruta ainda cai do ceu e o peixe do mar, o problema e obvio: comida com pouco valor nutricional mas extremamente saciante e (as vezes, muito) mais barata que comida com muito valor nutricional mas que nao mata a fome. Os pobres sao gordos e os ricos sao elegantes.
Acresce a isto uma cultura que incentiva a quantidade por si, o muito por dolar de comida paga. E um pouco esquizofrenico. No pais dos gordos, os anuncios continuam a apregoar a muita quantidade de calorias que se pode ter se se for a restaurante de junk-food tipo xis.
E tambem me parece que, no pais do entretenimento, simplesmente quer-se tudo de uma vez so: comer batata frita e emagrecer. Na minha escola, nas maquinas de snacks, as batatas fritas feitas no forno tem um selo verde a dizer escolha facil e saudavel. No parque de entretenimento, a escolha apregoada como saudavel eram 10 morangos com 10 centimetros de chantilli em cima. Nao estou a gozar. Os americanos nao podiam deixar de ser gordos.
No meu departamento de estudos sociais, ha umas pessoas que estudam incentivos para as pessoas emagrecerem. Muita ciencia, muita ciencia, para se tapar o sol com a peneira.
Adiante.
Agora aqui faz frio, que e como quem diz, quem nao tem casaco morre. Tambem nao vejo caes nem gatos vadios, e nao e por causa dos restaurantes chineses, que aqui nao os ha como em Portugal. Devem ficar brancos com a beleza magica da neve. Felizmente os americanos invadiram o Iraque, continuam a assegurar um fluxo continuo de petroleo e, para os humanos, as casas sao sobreaquecidas. Quer isto dizer que quando neva la fora, se pode andar de manga curta ca dentro. E as vezes tem-se que abrir a janela porque mesmo assim faz calor demais... Hum, nunca o desperdicio americano me soube tao bem.
(Estar aqui faz-me olhar com compaixao para os anuncios a incentivar a reciclagem no nosso pais... Tao ingenuos que somos: mesmo que quisessemos tinhamos que nos esforcar para chegar aos calcanhares energeticos dos nossos heated brothers).
Passou o halloween, daqui a dois dias e o thanksgiving, esta a chegar o Natal.
O halloween e como o nosso carnaval, mas com mais gente esquisita e pintada na rua. As pessoas dao mesmo chocolatinhos. Dois dos meus professores trouxeram o resto dos doces para a aula. Bom.
E thanksgiving para uns, terror para outros. Todo o peru tem a sua hora, especialmente daqui a dois dias. Vou passar o meu thanksgiving em casa de emigrantes, mas um dos meus professores convidou a malta tuga para um almoco a americana. E tempo de familia.
Familia... O Natal esta ai. Custa-me a acreditar que ha seis meses que nao abraco a minha mae, nao vejo o meu irmao nem digo ola ao meu pai cara a cara. Que Lisboa esta tao longe e os amigos do outro lado do mar a viver outras coisas. As vezes a normalidade americana e-me estranha. Dou por mim a andar pelas ruas de uma cidade que nao me conhece, como quem anda por um mundo alternativo, que e o meu mas nao e bem o meu.
Saudade.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Souvenir
Epá, estou emocionada.
Já que me esqueci que as televisões esqueceram o Nader (quem?) e os outros totós da extrema-direita americana.
Já me esqueci do bailout. Porque me hei-de lembrar neste momento que o JPMorgan anda a brincar às mergers e acquisitions com o dinheiro do bailout? A lógica capitalista luta sempre pela eficiência económica, provavelmente estão certos.
Já me esqueci do dinheiro que o Obama angariou. Até porque ele começou mais pobrezinho que Job. Foi o dom dele que fez esta vitória.
Fui tomada pela loucura democrática americana.
O meu professor de história perguntou à "portuguese team" se tínhamos assistido à vitória da democracia na américa, a um virar de história histórico.
Sim, assisti. Ontem, num bar, a vitória arrasadora nem me deu desculpas para me deitar tarde. Ao inicío da noite, já se sabia que o Obama tinha ganho. No bar ouvia-se música ("A barraca abana" como dizia uma colega minha do doutoramento) e toda a gente torcia pelo afro-americano, com grandes gritos quando a cnn declarava um estado democrático.
A música foi apenas interrompida pelo discurso do Obama, the President Elect. Epá, fiquei com a lágrima ao canto do olho (como a Sarah Palin, ao pé do McCain). Isto sim, é falar. Percebe-se ali um certo sabor a púlpito (quiçá transpirado pelos anos a ouvir o Wright?). Biblíco.
O McCain, uns minutos antes, não tinha ficado atrás. Ficou sim, muito à frente do avôzinho caquético que acusou o Obama de se associar ao terrorista Ayers no último debate presidencial. Voou acima da divisão presidencial, evitou os boos da populaça e pediu a todos união e ajuda em prol do novo líder. Arcou com as culpas da derrota republica. Bonito.
E hoje de manhã o mundo era diferente. Os shows políticos que vi lembraram-se que os afro-americanos às vezes também opinavam e mandaram vir jornalistas de cor.
Na cnn e no new york times só se veêm afro-americanos felizes.
Eu também quero por o país primeiro, mudar o mundo e ganhar umas eleições (ou o Nobel).

Yes, we can.
E digam-me lá se eu não sou muito mais gira que o McCain (sim, a foto foi mesmo tirada depois de ele ter feito um discurso naquele púlpito).
Já que me esqueci que as televisões esqueceram o Nader (quem?) e os outros totós da extrema-direita americana.
Já me esqueci do bailout. Porque me hei-de lembrar neste momento que o JPMorgan anda a brincar às mergers e acquisitions com o dinheiro do bailout? A lógica capitalista luta sempre pela eficiência económica, provavelmente estão certos.
Já me esqueci do dinheiro que o Obama angariou. Até porque ele começou mais pobrezinho que Job. Foi o dom dele que fez esta vitória.
Fui tomada pela loucura democrática americana.
O meu professor de história perguntou à "portuguese team" se tínhamos assistido à vitória da democracia na américa, a um virar de história histórico.
Sim, assisti. Ontem, num bar, a vitória arrasadora nem me deu desculpas para me deitar tarde. Ao inicío da noite, já se sabia que o Obama tinha ganho. No bar ouvia-se música ("A barraca abana" como dizia uma colega minha do doutoramento) e toda a gente torcia pelo afro-americano, com grandes gritos quando a cnn declarava um estado democrático.
A música foi apenas interrompida pelo discurso do Obama, the President Elect. Epá, fiquei com a lágrima ao canto do olho (como a Sarah Palin, ao pé do McCain). Isto sim, é falar. Percebe-se ali um certo sabor a púlpito (quiçá transpirado pelos anos a ouvir o Wright?). Biblíco.
O McCain, uns minutos antes, não tinha ficado atrás. Ficou sim, muito à frente do avôzinho caquético que acusou o Obama de se associar ao terrorista Ayers no último debate presidencial. Voou acima da divisão presidencial, evitou os boos da populaça e pediu a todos união e ajuda em prol do novo líder. Arcou com as culpas da derrota republica. Bonito.
E hoje de manhã o mundo era diferente. Os shows políticos que vi lembraram-se que os afro-americanos às vezes também opinavam e mandaram vir jornalistas de cor.
Na cnn e no new york times só se veêm afro-americanos felizes.
Eu também quero por o país primeiro, mudar o mundo e ganhar umas eleições (ou o Nobel).

Yes, we can.
E digam-me lá se eu não sou muito mais gira que o McCain (sim, a foto foi mesmo tirada depois de ele ter feito um discurso naquele púlpito).
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Lessons from the elections
Eu sei que isto é clichet, mas vou começar o post assim: faltam cerca de duas a três horas para sabermos os resultados das eleições mais mediáticas do momento. É claro que, como o resto do mundo, estou à espera.
Já consumi o lixo da cnn e do new york times, que fazem notícias sobre as notícias que não aparecem. Sem surpresas, ainda não se sabe quem é o vencedor. No entanto, aqui, na pátria da liberdade e da democracia (nos EUA, a pátria da igualdade democrática é a América, esqueçam a França, devaneio de europeus), americanos com a lágrima ao canto do olho falam da nação, de patriotismo e mudança. Até a Palin acha que é tempo de mudar. Cá para mim, é emoção a mais.
É óbvio que estou a torcer pelo Obama. Confesso que até gosto do tipo. Mas ele é tão magrinho, novinho, (bem-pago?), coitadinho. O que pode ele fazer?
Espero que pelo menos seja o fim da américa radical cristã. Que deus seja deixado em paz e que o sexo deixe de ser considerado pecado nacional para os não-casados.
Que haja mais parlapié, conversa, efectivas negociações com as Nações Unidas (esse pormenor).
E vamos a ver o que acontece no Iraque. E no Irão.
Mas esta campanha não foi só histórica para os afro-americanos: foi o meu ritual iniciático na política made in USA. Não estava à espera, mas fiquei desiludida.
Voei para a américa inspirada pelo título do livro "the audacity to hope" do Barack. Isto cheirava-me a pessoas racionais e altruístas, a um nível de discussão elevado, à política de ideais públicos.
Ah! É óbvio que me esqueci que os candidatos são feitos por quem os paga (as empresas que receberam os 700 bilhões de dólares). E, depois de ver a Palin, a Obama e o McCain em discurso directo; depois de ver como as eleições são engendradas por tipos como o Rove, a minha esperança inicial resume-se a esperar que ganhe o menos mau. Que é como quem diz, o menos branco.
A américa tem muitas coisas boas, mas tem fraquezas que a tornam mais susceptível de eleger tipos como o Bush:
: Só tem dois partidos. É óbvio que há mais candidatozinhos (incluindo o Nader) a concorrer. No entanto, estes são tão marginais que só por engano é que se tropeça neles. Infelizmente, já soube que em Portugal também se está a cozinhar um esquema que limita o número de candidatos e ideias. É pena.
Existe um modelo económico - o modelo de Hotelling - que prevê que, numa praia que se estende de 0 a 1, dois vendedores de gelados que queiram maximizar os lucros se situem exactamente no meio*. Isto serve de metáfora para tudo e mais alguma coisa, desde localização de lojas numa rua, convergência de canais de televisão, até uniformização de candidatos.
: Aqui existem os issue-voters. Isto são pessoas que acreditam tanto em algumas coisas que o seu voto é determinado pela posição do candidato em relação ao aborto ou à discriminação gay. É óbvio que estes votantes são altamente manipuláveis por "Smear campaigns" sem escrúpulos. A vitória do Bush em 2004 (e em 2000, quando se afirmou contra o McCain como candidato republicano) é em parte devida à exploração desta fragilidade (por tipos como o Karl Rove).
: A abstenção é imensa. Votação recorde quer dizer que, se calhar, votam 64% hoje. Nas últimas eleições, votaram cerca de 54%. Isto quer dizer que fanáticos excitados como os issue-voters podem deitar tudo a perder. (Em Portugal, em 2005, para a AR, abstiveram-se 35% das pessoas - não sei se estes números incluem pessoas que não se registaram).
http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0001684&selTab=tab2
: Numa nação agarrada à TV, a quantidade de dinheiro que se consegue angariar para fazer anúncios é decisiva. Quem mais aparece, mais ganha. Se for em prime-time, melhor.
: Num derradeiro afastamento da racionalidade, a personalidade, família e integridade do candidato, aqui, são da mais extrema importância. As mulheres dos candidatos são figuras públicas. Os filhos também aparecem nos comícios. Não me parece que candidatos divorciados tenham muito saída, coitados.
: É um país enorme, com pouco tempo para ver notícias. Daqui sai que a complexidade de um programa eleitoral só a custo pode ser digerida pelo americano comum.
É também um país dividido. A maior parte das notícias (tirando a Fox) é escrita por democratas. Cheira-me que é por isso que a Palin é vista como uma escolha tão negativa. Na verdade, depois do Obama, ela é a pessoa que atrai mais pessoas para comícios.
Enfim, god bless us all.
Já consumi o lixo da cnn e do new york times, que fazem notícias sobre as notícias que não aparecem. Sem surpresas, ainda não se sabe quem é o vencedor. No entanto, aqui, na pátria da liberdade e da democracia (nos EUA, a pátria da igualdade democrática é a América, esqueçam a França, devaneio de europeus), americanos com a lágrima ao canto do olho falam da nação, de patriotismo e mudança. Até a Palin acha que é tempo de mudar. Cá para mim, é emoção a mais.
É óbvio que estou a torcer pelo Obama. Confesso que até gosto do tipo. Mas ele é tão magrinho, novinho, (bem-pago?), coitadinho. O que pode ele fazer?
Espero que pelo menos seja o fim da américa radical cristã. Que deus seja deixado em paz e que o sexo deixe de ser considerado pecado nacional para os não-casados.
Que haja mais parlapié, conversa, efectivas negociações com as Nações Unidas (esse pormenor).
E vamos a ver o que acontece no Iraque. E no Irão.
Mas esta campanha não foi só histórica para os afro-americanos: foi o meu ritual iniciático na política made in USA. Não estava à espera, mas fiquei desiludida.
Voei para a américa inspirada pelo título do livro "the audacity to hope" do Barack. Isto cheirava-me a pessoas racionais e altruístas, a um nível de discussão elevado, à política de ideais públicos.
Ah! É óbvio que me esqueci que os candidatos são feitos por quem os paga (as empresas que receberam os 700 bilhões de dólares). E, depois de ver a Palin, a Obama e o McCain em discurso directo; depois de ver como as eleições são engendradas por tipos como o Rove, a minha esperança inicial resume-se a esperar que ganhe o menos mau. Que é como quem diz, o menos branco.
A américa tem muitas coisas boas, mas tem fraquezas que a tornam mais susceptível de eleger tipos como o Bush:
: Só tem dois partidos. É óbvio que há mais candidatozinhos (incluindo o Nader) a concorrer. No entanto, estes são tão marginais que só por engano é que se tropeça neles. Infelizmente, já soube que em Portugal também se está a cozinhar um esquema que limita o número de candidatos e ideias. É pena.
Existe um modelo económico - o modelo de Hotelling - que prevê que, numa praia que se estende de 0 a 1, dois vendedores de gelados que queiram maximizar os lucros se situem exactamente no meio*. Isto serve de metáfora para tudo e mais alguma coisa, desde localização de lojas numa rua, convergência de canais de televisão, até uniformização de candidatos.
: Aqui existem os issue-voters. Isto são pessoas que acreditam tanto em algumas coisas que o seu voto é determinado pela posição do candidato em relação ao aborto ou à discriminação gay. É óbvio que estes votantes são altamente manipuláveis por "Smear campaigns" sem escrúpulos. A vitória do Bush em 2004 (e em 2000, quando se afirmou contra o McCain como candidato republicano) é em parte devida à exploração desta fragilidade (por tipos como o Karl Rove).
: A abstenção é imensa. Votação recorde quer dizer que, se calhar, votam 64% hoje. Nas últimas eleições, votaram cerca de 54%. Isto quer dizer que fanáticos excitados como os issue-voters podem deitar tudo a perder. (Em Portugal, em 2005, para a AR, abstiveram-se 35% das pessoas - não sei se estes números incluem pessoas que não se registaram).
http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0001684&selTab=tab2
: Numa nação agarrada à TV, a quantidade de dinheiro que se consegue angariar para fazer anúncios é decisiva. Quem mais aparece, mais ganha. Se for em prime-time, melhor.
: Num derradeiro afastamento da racionalidade, a personalidade, família e integridade do candidato, aqui, são da mais extrema importância. As mulheres dos candidatos são figuras públicas. Os filhos também aparecem nos comícios. Não me parece que candidatos divorciados tenham muito saída, coitados.
: É um país enorme, com pouco tempo para ver notícias. Daqui sai que a complexidade de um programa eleitoral só a custo pode ser digerida pelo americano comum.
É também um país dividido. A maior parte das notícias (tirando a Fox) é escrita por democratas. Cheira-me que é por isso que a Palin é vista como uma escolha tão negativa. Na verdade, depois do Obama, ela é a pessoa que atrai mais pessoas para comícios.
Enfim, god bless us all.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Religulous
No outro dia fui ver este filme: Religulous - http://www.lionsgate.com/religulous/.
O filme anuncia-se como uma satira a religiao organizada (sim, Joao Vasco, vais adorar). Mas acaba por ser muito mais do que isso.
O comeco e assim estilo Michael Moore - piada engracada de que so os convertidos se riem. No entanto, foi bom ver que o realizador nao era politicamente correcto, criticando cristaos, muculmanos, cientologistas e judeus - e nao so os cristaos proximos. Tambem gostei que nao tivesse caido no extremo de dizer que todos os religiosos sao fanaticos, e tivesse filmado um frade holandes a dizer "que a biblia, no fundo, no fundo, gostava dos homossexuais".
Apesar de, sim, ter filmado alguns extremistas que superam o extremo concebivel pelo cidadao comum. Como o velho com olhar mau que gere o museu criacionista nos EUA, onde criancas brincam com dinossauros. Ou uma americana adolescente com ar angelical a dizer "I don't hate homossexuals. God does". Ou o senador republicano que acredita na biblia e conclui a dizer "you don't need an IQ test to run for senator".
Mas tudo isto seria mais ou menos inconsequente, nao fosse o final do filme. Inconsequente porque quem vai ver isto ja sabe de cor estas piadas, estas criticas. Quanto muito, fica com uma visao alargada do extremo a que se pode ir.
Mas o final do filme demonstra que o realizador sabe perfeitamente quem e a audiencia dele. E ele sabe que quem vai, ou ja conhece as falacias da religiao organizada ou para la caminha. O objectivo nunca foi fazer um documentario BBC sobre a psique humana com cientistas e doutorados.
O objectivo e demonstrar que a religiao nao e inocua. Deus polui o espaco politico de hoje em dia e isso, em si, constitui uma ameaca. Aquilo que, para mim, foi absolutamente novo neste filme foi ter sido feito um apelo a consciencia dos ateus, agnosticos e religiosos com senso.
Ter religiao e uma escolha individual. Assim, nao ter religiao e tambem uma escolha individual. No entanto, os ateus, ao contrario dos cristaos ou muculmanos nao fazem teatrinhos de natal juntos, nao vao a missa nem se encontram na mesquita. Os nao religiosos encontram-se dispersos, e parece nao haver uma consciencia de grupo do seu poder.
Este filme foi o primeiro apelo mainstream a que assisto a tentar motivar estas pessoas a reclamar o espaco publico. E por isso que isto e muito mais do uma comedia sarcastica: e um apelo preocupado a accao urgente.
O filme anuncia-se como uma satira a religiao organizada (sim, Joao Vasco, vais adorar). Mas acaba por ser muito mais do que isso.
O comeco e assim estilo Michael Moore - piada engracada de que so os convertidos se riem. No entanto, foi bom ver que o realizador nao era politicamente correcto, criticando cristaos, muculmanos, cientologistas e judeus - e nao so os cristaos proximos. Tambem gostei que nao tivesse caido no extremo de dizer que todos os religiosos sao fanaticos, e tivesse filmado um frade holandes a dizer "que a biblia, no fundo, no fundo, gostava dos homossexuais".
Apesar de, sim, ter filmado alguns extremistas que superam o extremo concebivel pelo cidadao comum. Como o velho com olhar mau que gere o museu criacionista nos EUA, onde criancas brincam com dinossauros. Ou uma americana adolescente com ar angelical a dizer "I don't hate homossexuals. God does". Ou o senador republicano que acredita na biblia e conclui a dizer "you don't need an IQ test to run for senator".
Mas tudo isto seria mais ou menos inconsequente, nao fosse o final do filme. Inconsequente porque quem vai ver isto ja sabe de cor estas piadas, estas criticas. Quanto muito, fica com uma visao alargada do extremo a que se pode ir.
Mas o final do filme demonstra que o realizador sabe perfeitamente quem e a audiencia dele. E ele sabe que quem vai, ou ja conhece as falacias da religiao organizada ou para la caminha. O objectivo nunca foi fazer um documentario BBC sobre a psique humana com cientistas e doutorados.
O objectivo e demonstrar que a religiao nao e inocua. Deus polui o espaco politico de hoje em dia e isso, em si, constitui uma ameaca. Aquilo que, para mim, foi absolutamente novo neste filme foi ter sido feito um apelo a consciencia dos ateus, agnosticos e religiosos com senso.
Ter religiao e uma escolha individual. Assim, nao ter religiao e tambem uma escolha individual. No entanto, os ateus, ao contrario dos cristaos ou muculmanos nao fazem teatrinhos de natal juntos, nao vao a missa nem se encontram na mesquita. Os nao religiosos encontram-se dispersos, e parece nao haver uma consciencia de grupo do seu poder.
Este filme foi o primeiro apelo mainstream a que assisto a tentar motivar estas pessoas a reclamar o espaco publico. E por isso que isto e muito mais do uma comedia sarcastica: e um apelo preocupado a accao urgente.
Second show, now with Michelle
Eu sei que, la no fundo, no fundo, sao todos iguais. Eu sei que democratas e republicanos apoiaram o bail-out. Eu suspeito que a necessidade do bail-out, a negociacao do bail-out, a votacao do bail-out, teve muito pouco a ver com eficiencia economica e muito a ver com palmadinhas nas costas dos mais ricos, enquanto o Joe Plummer nao paga a hipoteca.
Eu sei isso tudo e, no entanto, como foi bom ver a Michelle Obama a discursar aqui a Pittsburgh. Sim, era uma audiencia universitaria. E, nao, ela nao teve a discutir health care ou os detalhes dos impostos. No entanto, epa, teve classe.
Depois do rally histerico da Palin, feito para a base republicana branca, atirando para a populaca o sangue dos bebes mortos, foi bom ver um comicio cheio de afro-americanos, em que o discurso se centra no candidato e nao no opositor. E claro os democratas estao mais descansados que os republicanos, nesta fase do campeonato. Estao a frente: talvez nao precisem de atacar tanto. Mesmo assim.
A Michelle vendeu esperanca e promessas, falou do Obama como quem acredita mesmo nele, e fez tudo isso no tom american-dream de quem tinha pulado o muro que separa os suburbios da parte rica da cidade.
E claro que e um mito. Mas soa melhor que sangue.
Eu sei isso tudo e, no entanto, como foi bom ver a Michelle Obama a discursar aqui a Pittsburgh. Sim, era uma audiencia universitaria. E, nao, ela nao teve a discutir health care ou os detalhes dos impostos. No entanto, epa, teve classe.
Depois do rally histerico da Palin, feito para a base republicana branca, atirando para a populaca o sangue dos bebes mortos, foi bom ver um comicio cheio de afro-americanos, em que o discurso se centra no candidato e nao no opositor. E claro os democratas estao mais descansados que os republicanos, nesta fase do campeonato. Estao a frente: talvez nao precisem de atacar tanto. Mesmo assim.
A Michelle vendeu esperanca e promessas, falou do Obama como quem acredita mesmo nele, e fez tudo isso no tom american-dream de quem tinha pulado o muro que separa os suburbios da parte rica da cidade.
E claro que e um mito. Mas soa melhor que sangue.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Drill, Sarah, Drill
No outro dia fui a um comício da Palin. Saí de casa por volta das 4 da manhã, perdi-me no meio da imensidão da Pennsylvania, e achei-me numa cidade-vila americana, daquelas onde ou se trabalha na fábrica ou se é polícia (intuição minha).
Esperei duas horas numa fila de republicanos ferrenhos.
Isto foi muito instrutivo. À minha volta, republicanos brancos esperavam calados ou tecendo comentários sobre o mundo em geral e o Obama em particular. Haviam cartazes a dizer "we pray for you, Sarah" e uma raparinha loirinha que não deve saber ler tinha um que dizia "My name is Reagan and I'm voting for Sarah". Houve umas senhoras que tinham visto na internet que o Obama tinha forjado a certidão de nascimento. "Hum, hum", parece que o tipo nem americano é.
À medida que a fila crescia, cresciam os protestos contra a Palin. A consciência de grupo começou a despertar quando, do outro lado da rua, uns tipos pro-Obama assumiam a sua irreverência. É claro que isto foi o ponto alto da espera, para mim e para todos os envolvidos. Mas os republicanos querem tudo com ordem, muita ordem.
As entradas eram controladas por bilhetes que, apesar de gratuitos, não eram dados à revelia, só a pessoas que a qualquer momento não gritariam qualquer coisa sobre a guerra. E pessoas foram expulsas da fila por gritarem contra os tipos pro-Obama.
A espera em si foi um pouco angustiante. Sentia-me verdadeiramente uma espia, prestes a ser denunciada pelo seu sotaque europeu.
O comício em si compensou a angústia. Se alguma vez viram a Palin a falar sabem que a escolha dela para VP é controversa, mesmo dentro dos republicanos. Controvérsia neste caso quer dizer que a tipa parece assustadoramente ignorante. Este comício fez-me entender que o que para uns é falta de qualificações, para outros é as qualificações que se conseguem entender.
A Sarah foi apresentada como a pessoa que "talks the talks because she walks the walk" e começou o discurso a dizer que o marido era exactamente como as pessoas que assistiam ao comício - hand-workers.
É claro que isto foi o ponto alto. A partir daqui, seguiram-se umas baboseiras sobre independência energética, como se o "clean coal" e os "untapped resources of Alasca" fossem já para amanhã. E, sim, havia pessoas a cantar "Drill, baby, drill".
O discurso contra o Obama centrou-se em ele ser a favor do aborto. E em nunca ter dito que quer que a América ganhe a guerra do Iraque.
Daqui seguiu-se para o argumento puxa-lágrima, porque a Sarah vai cuidar muito das criancinhas deficientes. Os seres humanos precisam de cuidar dos mais frágeis - desde, claro, que eles não sejam crianças iraquianas.
Que a verdade seja dita, não achei a forma do discurso especialmente má, dado ter sido entregue a uma multidão de apoiantes. Isto é, foi tão má como todos os que vi até agora, unem a bota com a perdigota e depois dizem "o meu partido é bom".
No final, houve uma corrida ao autógrafo, e a Sarah assinou muito papelucho.
E, enfim, foi isto. Ao meio dia estava de volta a casa.
Esperei duas horas numa fila de republicanos ferrenhos.
Isto foi muito instrutivo. À minha volta, republicanos brancos esperavam calados ou tecendo comentários sobre o mundo em geral e o Obama em particular. Haviam cartazes a dizer "we pray for you, Sarah" e uma raparinha loirinha que não deve saber ler tinha um que dizia "My name is Reagan and I'm voting for Sarah". Houve umas senhoras que tinham visto na internet que o Obama tinha forjado a certidão de nascimento. "Hum, hum", parece que o tipo nem americano é.
À medida que a fila crescia, cresciam os protestos contra a Palin. A consciência de grupo começou a despertar quando, do outro lado da rua, uns tipos pro-Obama assumiam a sua irreverência. É claro que isto foi o ponto alto da espera, para mim e para todos os envolvidos. Mas os republicanos querem tudo com ordem, muita ordem.
As entradas eram controladas por bilhetes que, apesar de gratuitos, não eram dados à revelia, só a pessoas que a qualquer momento não gritariam qualquer coisa sobre a guerra. E pessoas foram expulsas da fila por gritarem contra os tipos pro-Obama.
A espera em si foi um pouco angustiante. Sentia-me verdadeiramente uma espia, prestes a ser denunciada pelo seu sotaque europeu.
O comício em si compensou a angústia. Se alguma vez viram a Palin a falar sabem que a escolha dela para VP é controversa, mesmo dentro dos republicanos. Controvérsia neste caso quer dizer que a tipa parece assustadoramente ignorante. Este comício fez-me entender que o que para uns é falta de qualificações, para outros é as qualificações que se conseguem entender.
A Sarah foi apresentada como a pessoa que "talks the talks because she walks the walk" e começou o discurso a dizer que o marido era exactamente como as pessoas que assistiam ao comício - hand-workers.
É claro que isto foi o ponto alto. A partir daqui, seguiram-se umas baboseiras sobre independência energética, como se o "clean coal" e os "untapped resources of Alasca" fossem já para amanhã. E, sim, havia pessoas a cantar "Drill, baby, drill".
O discurso contra o Obama centrou-se em ele ser a favor do aborto. E em nunca ter dito que quer que a América ganhe a guerra do Iraque.
Daqui seguiu-se para o argumento puxa-lágrima, porque a Sarah vai cuidar muito das criancinhas deficientes. Os seres humanos precisam de cuidar dos mais frágeis - desde, claro, que eles não sejam crianças iraquianas.
Que a verdade seja dita, não achei a forma do discurso especialmente má, dado ter sido entregue a uma multidão de apoiantes. Isto é, foi tão má como todos os que vi até agora, unem a bota com a perdigota e depois dizem "o meu partido é bom".
No final, houve uma corrida ao autógrafo, e a Sarah assinou muito papelucho.
E, enfim, foi isto. Ao meio dia estava de volta a casa.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
O Sonho Americano (The American Dream)
Devo assumir que ando cada vez mais Anti-Americano.
Não, não sou xenófobo. Este meu anti-americanismo não é nada contra a América enquanto espaço físico ou os americanos em geral, mas sim contra o que a América ainda representa para nós, para mim ainda que insconscientemente, enquanto símbolo onírico de tudo o que idealizamos como bom. É o conceito aglutinador das múltiplas oportunidades, fáceis e rápidas, da prosperidade, da variedade, da liberdade, da democracia, do empreendedorismo, do crescimento. O que é interessante é que, como utópico, encerra em si todos os desejos do sujeito que fantasia.
Se fecharmos os olhos, existe a América onde o americano normal vive numa bela casa (com páineis fotovoltaicos), muitos livros (intelectualmente estimulantes), muita música (boa), tudo em formato digital, vai de carro para o emprego (não poluente e reciclado), come comida saborosa e saudável, os nossos amigos são dos sete cantos do mundo e vivemos todos em harmonia.
Mas também podemos fechar os olhos e ver uma América onde cada pessoa tem o seu Hummer, anda com 5 colares de ouro de meio kilo ao pescoço, tem sempre quatro babes dentro do Hummer e é um sucesso a cantar rap.
Ou então cada um que tem uma ideia para uma empresa e é já um sucesso em si, afinal de contas é a terra das oportunidades.
A América, por definição, é assim: é a terra prometida individual. É o nosso éden ptolomeico. O local perfeito para o desenvolvimento do "eu". Não sei como chegámos até aqui, ou talvez possa vislumbrar.
Para mim a América simboliza este crash económico (mundial, diga-se de passagem), este enorme palácio de cristal feito de uma gigantesca bola de sabão. É bonito por fora, mas se lhe tocarmos rebenta numa multiplicidade de gotículas que mais não são que uma reminiscência do nosso sonho. Por dentro restam as pessoas reais, com caras reais, corpos reais, necessidades reais, gostos reais, aspirações reais, que estavam escondidas porque eram "demasidado" reais.
A América é o símbolo do braço mais radical deste capitalismo (ah, utilizei esta palavra) balofo e toda a máquina ideológica que nos emprenha pelos cinco sentidos, sublimando-nos a este (des) ideal. Daí o meu Anti-Americanismo.
Por causa do último post da Cris, dizendo que provalvelmente o portugês médio é analfabeto, fiquei com curiosidade de saber como é a taxa de literacia na América. Para minha curiosidade os dados oficiais até agora indicam uma taxa de 99.9%. Incrível, mas não sei porquê, demasiado bom para ser verdade. Procurei um pouco mais e descobri que existem 7 milhões de iletrados (~2%), 27 milhões são incapazes de obter um emprego por serem incapazes de ler (~9%) e 30 milhões são incapazes de perceber uma frase simples (~10%). Portugal está também com cerca de 10% de iletrados, mas na realidade devem ser uns 15%. A diferença não é muita, ou melhor, é muita porque o português normal não pode bombardear outros países nem ditar a cultura média mundial.
Faz-me um pouco de impressão falar assim do português: como analfabeto. Não sou nacionalista, mas não tenho vergonha de ser português. Sou crítico de muitas coisas de Portugal, a grande maioria, transversais a todos os países capitalistas como o nosso. O escarrar para o chão do português médio não é mais feio que o do americano médio, nem que o do holandês médio (apesar de escarrar, em média, de mais alto), ou as alarvidades que vocifera o português médio não são piores que as do americano médio. Nem a Fátima Lopes é pior que a Oprah.
A diferença está na escala, na dimensão. Nós copiamos e fazemos coisas no nosso quintal, os outros transvasam fronteiras.
Agora, para mim a América é pior, no sentido em que está mais à frente no ponto de vista do estádio de desenvolvimento. A América é o nosso futuro, se nada fizermos, é o nosso sonho (ou será pesadelo?). O meu anti-Americanismo é esse, é um anti-capitalismo.
As verdadeiras taxas de probreza na América rondam os 20 e tal %. Vejam este artigo:
http://www.citymayors.com/society/usa-poverty.html
~64% dos Americanos têm peso a mais, ~30% têm mais de 13kg que o peso máximo adequado à sua estatura. Sim, existem alternativas saudáveis em alguns supermercados, em alguns vegetarianos, mas é essa a média? É isso o que se encontra se se procurar aleatoriamente? Das pessoas adultas a cerca de 50% das afro-americanas são obesas, comparando com 30% das brancas.
20% dos Americanos não têm acesso a assistência de saúde.
A América média é a América que nos obriga a ler e concordar com 120 páginas de EULA para poder ver a bela adormecida.
O Americano médio diz que o Barack Obama é terrorista porque se chama Barack:
http://bloggerinterrupted.com/2008/10/video-the-mccain-palin-mob-in-strongsville-ohio
O America média tem mais de 9 armas por casa 10 habitantes.
A América real é pior ainda que a América média: não há distribuições e homegeneizações artificiais que surgem da estatística.
O problema da América média é esse: não aparece na televisão, nem nos filmes, nem nas universidades privadas, nem nos bairros dos estudantes europeus, nem tão pouco nos restaurantes vegetarianos. A América média é a América real, iletrada, pobre, mal informada, preconceituosa, religiosa, reaccionária, feia, gorda, mal alimentada e alienada. Tal como provavelmente o Europeu médio agora, e ainda mais daqui a uns anos, se continuarmos nesta escalada de empreendedorismo capitalista.
Alternativas marginais existem em quase todo o lado. A questão e a forma de medir é ver quão fácil é encontrar essas alternativas e quão alternativas são.
http://www.time.com/time/photogallery/0,29307,1626519_1373664,00.html
http://www.time.com/time/photogallery/0,29307,1645016_1408103,00.html
-artur palha
Não, não sou xenófobo. Este meu anti-americanismo não é nada contra a América enquanto espaço físico ou os americanos em geral, mas sim contra o que a América ainda representa para nós, para mim ainda que insconscientemente, enquanto símbolo onírico de tudo o que idealizamos como bom. É o conceito aglutinador das múltiplas oportunidades, fáceis e rápidas, da prosperidade, da variedade, da liberdade, da democracia, do empreendedorismo, do crescimento. O que é interessante é que, como utópico, encerra em si todos os desejos do sujeito que fantasia.
Se fecharmos os olhos, existe a América onde o americano normal vive numa bela casa (com páineis fotovoltaicos), muitos livros (intelectualmente estimulantes), muita música (boa), tudo em formato digital, vai de carro para o emprego (não poluente e reciclado), come comida saborosa e saudável, os nossos amigos são dos sete cantos do mundo e vivemos todos em harmonia.
Mas também podemos fechar os olhos e ver uma América onde cada pessoa tem o seu Hummer, anda com 5 colares de ouro de meio kilo ao pescoço, tem sempre quatro babes dentro do Hummer e é um sucesso a cantar rap.
Ou então cada um que tem uma ideia para uma empresa e é já um sucesso em si, afinal de contas é a terra das oportunidades.
A América, por definição, é assim: é a terra prometida individual. É o nosso éden ptolomeico. O local perfeito para o desenvolvimento do "eu". Não sei como chegámos até aqui, ou talvez possa vislumbrar.
Para mim a América simboliza este crash económico (mundial, diga-se de passagem), este enorme palácio de cristal feito de uma gigantesca bola de sabão. É bonito por fora, mas se lhe tocarmos rebenta numa multiplicidade de gotículas que mais não são que uma reminiscência do nosso sonho. Por dentro restam as pessoas reais, com caras reais, corpos reais, necessidades reais, gostos reais, aspirações reais, que estavam escondidas porque eram "demasidado" reais.
A América é o símbolo do braço mais radical deste capitalismo (ah, utilizei esta palavra) balofo e toda a máquina ideológica que nos emprenha pelos cinco sentidos, sublimando-nos a este (des) ideal. Daí o meu Anti-Americanismo.
Por causa do último post da Cris, dizendo que provalvelmente o portugês médio é analfabeto, fiquei com curiosidade de saber como é a taxa de literacia na América. Para minha curiosidade os dados oficiais até agora indicam uma taxa de 99.9%. Incrível, mas não sei porquê, demasiado bom para ser verdade. Procurei um pouco mais e descobri que existem 7 milhões de iletrados (~2%), 27 milhões são incapazes de obter um emprego por serem incapazes de ler (~9%) e 30 milhões são incapazes de perceber uma frase simples (~10%). Portugal está também com cerca de 10% de iletrados, mas na realidade devem ser uns 15%. A diferença não é muita, ou melhor, é muita porque o português normal não pode bombardear outros países nem ditar a cultura média mundial.
Faz-me um pouco de impressão falar assim do português: como analfabeto. Não sou nacionalista, mas não tenho vergonha de ser português. Sou crítico de muitas coisas de Portugal, a grande maioria, transversais a todos os países capitalistas como o nosso. O escarrar para o chão do português médio não é mais feio que o do americano médio, nem que o do holandês médio (apesar de escarrar, em média, de mais alto), ou as alarvidades que vocifera o português médio não são piores que as do americano médio. Nem a Fátima Lopes é pior que a Oprah.
A diferença está na escala, na dimensão. Nós copiamos e fazemos coisas no nosso quintal, os outros transvasam fronteiras.
Agora, para mim a América é pior, no sentido em que está mais à frente no ponto de vista do estádio de desenvolvimento. A América é o nosso futuro, se nada fizermos, é o nosso sonho (ou será pesadelo?). O meu anti-Americanismo é esse, é um anti-capitalismo.
As verdadeiras taxas de probreza na América rondam os 20 e tal %. Vejam este artigo:
http://www.citymayors.com/society/usa-poverty.html
~64% dos Americanos têm peso a mais, ~30% têm mais de 13kg que o peso máximo adequado à sua estatura. Sim, existem alternativas saudáveis em alguns supermercados, em alguns vegetarianos, mas é essa a média? É isso o que se encontra se se procurar aleatoriamente? Das pessoas adultas a cerca de 50% das afro-americanas são obesas, comparando com 30% das brancas.
20% dos Americanos não têm acesso a assistência de saúde.
A América média é a América que nos obriga a ler e concordar com 120 páginas de EULA para poder ver a bela adormecida.
O Americano médio diz que o Barack Obama é terrorista porque se chama Barack:
http://bloggerinterrupted.com/2008/10/video-the-mccain-palin-mob-in-strongsville-ohio
O America média tem mais de 9 armas por casa 10 habitantes.
A América real é pior ainda que a América média: não há distribuições e homegeneizações artificiais que surgem da estatística.
O problema da América média é esse: não aparece na televisão, nem nos filmes, nem nas universidades privadas, nem nos bairros dos estudantes europeus, nem tão pouco nos restaurantes vegetarianos. A América média é a América real, iletrada, pobre, mal informada, preconceituosa, religiosa, reaccionária, feia, gorda, mal alimentada e alienada. Tal como provavelmente o Europeu médio agora, e ainda mais daqui a uns anos, se continuarmos nesta escalada de empreendedorismo capitalista.
Alternativas marginais existem em quase todo o lado. A questão e a forma de medir é ver quão fácil é encontrar essas alternativas e quão alternativas são.
http://www.time.com/time/photogallery/0,29307,1626519_1373664,00.html
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-artur palha
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