Posso resmungar porque a comida é esquisita, suspirar de saudades porque poucas pessoas aqui fazem parte da minha família, posso ansiar por ar a saber a maresia, mas a verdade é que gosto mesmo de estar aqui.
Das coisas que é mais fascinante na América, sobretudo para uma portuguesa habituada a burocracias lusas, é a eficiência americana.
Isso não quer dizer que não sejam feitos erros. Mas quer dizer que as instituições transpiram um ar de competência que ampara o recém-chegado. Não se perde tempo à procura de gabinetes, as pessoas saudam-nos de chaves nas mãos.
Tive um recente exemplo disso ainda hoje. A FCT atrasou-se a fazer o pagamento da propina. Quando pagaram já as multas iam altas. No meu departamento trataram de tratar das multas. Fiz então uma transferência em Dezembro que ainda não chegou (porque, descobri hoje, houve um engano com o meu nome). Isto é mais tarde que tarde, para prazos americanos. Comecei a receber e-mails do meu departamento por causa da transferência de que não havia notícia (só na minha conta, onde tinha sido debitada).
Tive pesadelos. Na minha cabeça toda a gente sussurrava sobre o meu incumprimento mentiroso. O meu orientador perguntava-me "show me the money" com ar severo.
Hoje, tudo se resolveu ao mesmo tempo. Vou ao serviço de pagamento da minha universidade onde, após confronto com o recibo da transferência, se apercebem que fizeram um erro na atribuição do nome. Com algum pesar, dizem-me que vão fazer o tudo por tudo para ter tudo pronto amanhã, mas que, se calhar, só para a semana me posso registar. O próprio senhor que me atende diz que vai tratar do meu problema. Acredito. Sem saber disto, no meu departamento, as secretárias tinham tratado de meter uma bolsa para mim, para eu me poder registar. Hoje, com orgulho, disseram-me que tinham tratado do meu problema (sem eu lhes pedir).
Tinha confundido preocupação com castigo. A minha alma tuga tinha interpretado os e-mails como perseguição. Não. Elas podiam não estar preocupadas comigo, mas cada um aqui está fundamentalmente preocupado em fazer o seu trabalho. É, de facto, algo que senti quando cheguei aqui.
Existe um optimismo no ar. A senhora que encomenda os tinteiros da impressora está profundamente ciente da importância do seu trabalho. Que é fundamental para o resto do departamento funcionar. Toda a gente se trata por tu. Quando um problema existe, é atacado por todos. Os prazos para acabar qualquer coisa são dias, e dois dias é muito. Cada um se orgulha de fazer o seu trabalho o melhor possível. E do meu orientador (a estrela do departamento) para baixo toda a gente se justifica quando isso não acontece.
A secretária que meteu uma bolsa para mim estava de facto contente com o ter-me ajudado. Nunca suspeitou da minha palavra ou honestidade. E, no fundo, ficou orgulhosa de ter resolvido um problema que também era o dela.
Isto tudo contrasta com aquilo que conheci no técnico, enquanto aluna e trabalhadora. Quando existe um problema, ou encontras um simpático que o resolve ou são semanas (indeterminadas) até o assunto se encerrar. Os senhores da secretaria são antipáticos. Um problema é sempre de ninguém.
Aqui o sistema de recompensas é diferente.
Mas não é só isso. Parece-me que a relação dos americanos com o fracasso é fundamentalmente diferente da conturbada relação lusa. Quando existe um problema, ele aponta vergonhosamente para a nossa culpa de incompetentes. Envergonhados, ocultamos o problema e fazemos de conta que não é nosso. Algo que não funciona diz-nos que somos maus e feios. O problema é nosso.
Os americanos não se identificam com o fracasso. O paradigma americano é outro. Na terra cornucopiamente rica da América, existe suficiente de tudo para todos. Como tal, existe uma crença fundamental na meritocracia e competição. No seu melhor, isso diz que cada um é capaz de qualquer coisa porque existe suficiente para todos. O fracasso é natural para aqueles que tentam. E isso é bom. Quando se falha também se aprende. Os americanos identificam-se com a capacidade de solucionar.
Isto é patente nestas pequenas coisas (cada um, do senhor da secretaria às secretárias do meu departamento, se responsabilizam por resolver o meu caso particular) e noutras coisas mais gerais também.
Como sabem, estudo empreendedores. E uma das coisas que se verifica é que o estigma do fracasso varia com o país do Looser. Portugal é dos países onde o estigma é mais exacerbado. A América é o contrário.
E eu noto que reajo de maneira diferente dos meus colegas americanos. Numa leitura sobre diferenças culturais aquando da integração de uma empresa america com outra alemã referia-se que os alemães tiveram que adoptar a prática america de declarar experiências falhadas. E que isso foi feito com muito desconforto. Eu, lusa com super-ego católico, compreendi muito bem os alemães, coitados. Mas, na aula, uma colega americana referiu o contrário "o quão estúpido que é não declarar os falhanços! Como é que alguém pode não deixar de o fazer".
É claro que também existem os mal-educadinhos. Mas em menor quantidade. Aqui, reza o mito, ser bom naquilo que se faz é ser tudo.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
2009
Adiar paga-se caro.
Não que não tenha gostado de passar a passagem de ano num táxi, a caminho de casa, com o Jossan, jordanês emigrado nos states, é só que... hum, podia ter sido algo mais.
O meu companheiro de viagem estava farto dos alegres clientes que pediam boleia na downtown de pittsburgh e por isso resolveu vir pescar pessoas no aeroporto.
Apanhou-me a mim.
Depois de um voo de 15 horas, que implicou (tentar) estar acordada durante cerca de um dia e 3 conecções de aviões, formei a seguinte resolução de Ano Novo: marcar viagens de avião com dois meses de antecedência. No mínimo.
Fui de Lisboa para Nova Yorque, e de NYC para Houston para ir para Pittsburgh. Que é como quem diz, vim de Nova Yorque para o Porto, para ir para Copenhaga para voltar a Lisboa. É a vida dos atrasados despachadinhos.
O primeiro avião foi fácil.
O segundo avião foi agonizantemente lento.
No terceiro avião acordei estremunhada sem saber se ia ou voltava de Lisboa.
E depois cheguei e tive que carregar a mala.
Que era pequenina mas gordinha, tinha comido todos os livros possíveis. Com a pressa e a angústia de perder os aviões nas escalas, fiz uma mala maneirinha que não tinha que ir para o porão. Não era preciso. Ao passar pela imigração vazia de Nova Yorque pensei "Bolas, tanta rapidez, bem que podia ter trazido o bacalhau". Fica para a próxima.
E o vosso ano novo, como foi?
Não que não tenha gostado de passar a passagem de ano num táxi, a caminho de casa, com o Jossan, jordanês emigrado nos states, é só que... hum, podia ter sido algo mais.
O meu companheiro de viagem estava farto dos alegres clientes que pediam boleia na downtown de pittsburgh e por isso resolveu vir pescar pessoas no aeroporto.
Apanhou-me a mim.
Depois de um voo de 15 horas, que implicou (tentar) estar acordada durante cerca de um dia e 3 conecções de aviões, formei a seguinte resolução de Ano Novo: marcar viagens de avião com dois meses de antecedência. No mínimo.
Fui de Lisboa para Nova Yorque, e de NYC para Houston para ir para Pittsburgh. Que é como quem diz, vim de Nova Yorque para o Porto, para ir para Copenhaga para voltar a Lisboa. É a vida dos atrasados despachadinhos.
O primeiro avião foi fácil.
O segundo avião foi agonizantemente lento.
No terceiro avião acordei estremunhada sem saber se ia ou voltava de Lisboa.
E depois cheguei e tive que carregar a mala.
Que era pequenina mas gordinha, tinha comido todos os livros possíveis. Com a pressa e a angústia de perder os aviões nas escalas, fiz uma mala maneirinha que não tinha que ir para o porão. Não era preciso. Ao passar pela imigração vazia de Nova Yorque pensei "Bolas, tanta rapidez, bem que podia ter trazido o bacalhau". Fica para a próxima.
E o vosso ano novo, como foi?
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Traditional american food
Existe muita controvérsia sobre o que é A Comida Americana Tradicional.
Uns dizem que não existe. O que é mentira porque há aqui coisas que não há em mais lado nenhum. Como os begels, que são rodinhas de pão, tipo donut, mas menos doces e, às vezes, com passas.
Outros dizem que são hamburgueres e pizza. Mas isso já não é comida americana. É ração-multinacional de engorda para a massa laboral que não tem tempo para comer mais nada.
Há ainda os connaisseurs que argumentam que o prato X de galinha e a entrada Y de peixe são americanos. O que é de desconfiar dado que essas iguarias são todas descendentes dos pratos das avós emigrantes dos americanos de hoje.
Onde então, reside a solução?... Ou serão os americanos o primeiro povo sem a alma de uma cozinha tradicional?
Para mim, a comida americana tradicional é o congelado. De altissíma qualidade, digo-vos já. Nos super-mercados daqui encontra-se de tudo e mais alguma coisa, frio e barato. Dos vegetais ao curry, da sopinha à galinha, da sobremesa à lasanha, bastam três minutos e têm uma refeição completa. E que compete em alto nível com o que uma pessoa, cansada e faminta, consegue fazer no segundinho de tempo que sobrou do trabalho.
É o progresso.
Uns dizem que não existe. O que é mentira porque há aqui coisas que não há em mais lado nenhum. Como os begels, que são rodinhas de pão, tipo donut, mas menos doces e, às vezes, com passas.
Outros dizem que são hamburgueres e pizza. Mas isso já não é comida americana. É ração-multinacional de engorda para a massa laboral que não tem tempo para comer mais nada.
Há ainda os connaisseurs que argumentam que o prato X de galinha e a entrada Y de peixe são americanos. O que é de desconfiar dado que essas iguarias são todas descendentes dos pratos das avós emigrantes dos americanos de hoje.
Onde então, reside a solução?... Ou serão os americanos o primeiro povo sem a alma de uma cozinha tradicional?
Para mim, a comida americana tradicional é o congelado. De altissíma qualidade, digo-vos já. Nos super-mercados daqui encontra-se de tudo e mais alguma coisa, frio e barato. Dos vegetais ao curry, da sopinha à galinha, da sobremesa à lasanha, bastam três minutos e têm uma refeição completa. E que compete em alto nível com o que uma pessoa, cansada e faminta, consegue fazer no segundinho de tempo que sobrou do trabalho.
É o progresso.
Procastination
Já percebi porque é que a massa laboral americana é conhecida pela sua ética quase fé no trabalho. Os americanos são quase todos emigrantes na segunda ou terceira geração. E, neste país, o Processo de emigração é tão fundamentalmente complexo que procastinadores e atrasados ou nunca entram ou têm que sair porque se esqueceram de uma assinatura.
É claro que existem umas quantas excepções, chamadas sorte, que acontecem a tugas desprevenidos em universidades hiper-eficientes. Como eu. Que quase passei um Natal por skype (escusam de dizer aos meus pais).
A razão é branca, A4 e chama-se I20. É um papelucho que certifica que eu sou estudante. Quando se entra no país, no aeroporto de Nova Yorque passa-se por umas casinhas da emigração onde somos interrogados por polícias sobre os nossos intentos nas américas. Quem não tem razão para ficar tem que apanhar o avião na volta (como nós somos do eixo do bem, podemos vir sem visa para turismo por três meses, mas precisamos de bilhete de volta).
Ao que parece, o I-20 tem que ser assinado cada 6 meses. Eu não sabia. Deixei passar os e-mails do office of international education, com um sorrisinho de desdém europeu e snobe, para, uns dias antes da ida, me aperceber que me faltava uma assinatura para poder voltar.
Felizmente os profissionais do OIE sabem que existem pessoas como eu e mandaram um e-mail a dizer que a última-ultimíssima hipótese para assinar o passe era, precisamente, hoje à tarde.
Fui salva.
É verdade, chego terça a casa.
Até breve.
É claro que existem umas quantas excepções, chamadas sorte, que acontecem a tugas desprevenidos em universidades hiper-eficientes. Como eu. Que quase passei um Natal por skype (escusam de dizer aos meus pais).
A razão é branca, A4 e chama-se I20. É um papelucho que certifica que eu sou estudante. Quando se entra no país, no aeroporto de Nova Yorque passa-se por umas casinhas da emigração onde somos interrogados por polícias sobre os nossos intentos nas américas. Quem não tem razão para ficar tem que apanhar o avião na volta (como nós somos do eixo do bem, podemos vir sem visa para turismo por três meses, mas precisamos de bilhete de volta).
Ao que parece, o I-20 tem que ser assinado cada 6 meses. Eu não sabia. Deixei passar os e-mails do office of international education, com um sorrisinho de desdém europeu e snobe, para, uns dias antes da ida, me aperceber que me faltava uma assinatura para poder voltar.
Felizmente os profissionais do OIE sabem que existem pessoas como eu e mandaram um e-mail a dizer que a última-ultimíssima hipótese para assinar o passe era, precisamente, hoje à tarde.
Fui salva.
É verdade, chego terça a casa.
Até breve.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Blue garlic and stuff
O alho aqui, quando se frita, fica azul. Primeiro pensei que fosse o fundo da panela a colar no alho. Depois, procurei no scholar. E a cozinha do seculo 21.
Segundo uns tipos chineses ou asiaticos o que acontece e que, quando o alho e velho, a fritura muda a sua cor.
Isto deve querer dizer que ando a comer alho centenario... Nao me espanta. A minha universidade e feita por ricos para ricos e por isso aqui comer aqui e bom e relativamente barato. O resto de pittsburgh, supermercados incluidos, e simplesmente americano.
E facil perceber porque e que 1/3 dos americanos sao obesos (ie, precisam de dois lugares do autocarro) e 1/3 e overweight. Para uma portuguesa onde a fruta ainda cai do ceu e o peixe do mar, o problema e obvio: comida com pouco valor nutricional mas extremamente saciante e (as vezes, muito) mais barata que comida com muito valor nutricional mas que nao mata a fome. Os pobres sao gordos e os ricos sao elegantes.
Acresce a isto uma cultura que incentiva a quantidade por si, o muito por dolar de comida paga. E um pouco esquizofrenico. No pais dos gordos, os anuncios continuam a apregoar a muita quantidade de calorias que se pode ter se se for a restaurante de junk-food tipo xis.
E tambem me parece que, no pais do entretenimento, simplesmente quer-se tudo de uma vez so: comer batata frita e emagrecer. Na minha escola, nas maquinas de snacks, as batatas fritas feitas no forno tem um selo verde a dizer escolha facil e saudavel. No parque de entretenimento, a escolha apregoada como saudavel eram 10 morangos com 10 centimetros de chantilli em cima. Nao estou a gozar. Os americanos nao podiam deixar de ser gordos.
No meu departamento de estudos sociais, ha umas pessoas que estudam incentivos para as pessoas emagrecerem. Muita ciencia, muita ciencia, para se tapar o sol com a peneira.
Adiante.
Agora aqui faz frio, que e como quem diz, quem nao tem casaco morre. Tambem nao vejo caes nem gatos vadios, e nao e por causa dos restaurantes chineses, que aqui nao os ha como em Portugal. Devem ficar brancos com a beleza magica da neve. Felizmente os americanos invadiram o Iraque, continuam a assegurar um fluxo continuo de petroleo e, para os humanos, as casas sao sobreaquecidas. Quer isto dizer que quando neva la fora, se pode andar de manga curta ca dentro. E as vezes tem-se que abrir a janela porque mesmo assim faz calor demais... Hum, nunca o desperdicio americano me soube tao bem.
(Estar aqui faz-me olhar com compaixao para os anuncios a incentivar a reciclagem no nosso pais... Tao ingenuos que somos: mesmo que quisessemos tinhamos que nos esforcar para chegar aos calcanhares energeticos dos nossos heated brothers).
Passou o halloween, daqui a dois dias e o thanksgiving, esta a chegar o Natal.
O halloween e como o nosso carnaval, mas com mais gente esquisita e pintada na rua. As pessoas dao mesmo chocolatinhos. Dois dos meus professores trouxeram o resto dos doces para a aula. Bom.
E thanksgiving para uns, terror para outros. Todo o peru tem a sua hora, especialmente daqui a dois dias. Vou passar o meu thanksgiving em casa de emigrantes, mas um dos meus professores convidou a malta tuga para um almoco a americana. E tempo de familia.
Familia... O Natal esta ai. Custa-me a acreditar que ha seis meses que nao abraco a minha mae, nao vejo o meu irmao nem digo ola ao meu pai cara a cara. Que Lisboa esta tao longe e os amigos do outro lado do mar a viver outras coisas. As vezes a normalidade americana e-me estranha. Dou por mim a andar pelas ruas de uma cidade que nao me conhece, como quem anda por um mundo alternativo, que e o meu mas nao e bem o meu.
Saudade.
Segundo uns tipos chineses ou asiaticos o que acontece e que, quando o alho e velho, a fritura muda a sua cor.
Isto deve querer dizer que ando a comer alho centenario... Nao me espanta. A minha universidade e feita por ricos para ricos e por isso aqui comer aqui e bom e relativamente barato. O resto de pittsburgh, supermercados incluidos, e simplesmente americano.
E facil perceber porque e que 1/3 dos americanos sao obesos (ie, precisam de dois lugares do autocarro) e 1/3 e overweight. Para uma portuguesa onde a fruta ainda cai do ceu e o peixe do mar, o problema e obvio: comida com pouco valor nutricional mas extremamente saciante e (as vezes, muito) mais barata que comida com muito valor nutricional mas que nao mata a fome. Os pobres sao gordos e os ricos sao elegantes.
Acresce a isto uma cultura que incentiva a quantidade por si, o muito por dolar de comida paga. E um pouco esquizofrenico. No pais dos gordos, os anuncios continuam a apregoar a muita quantidade de calorias que se pode ter se se for a restaurante de junk-food tipo xis.
E tambem me parece que, no pais do entretenimento, simplesmente quer-se tudo de uma vez so: comer batata frita e emagrecer. Na minha escola, nas maquinas de snacks, as batatas fritas feitas no forno tem um selo verde a dizer escolha facil e saudavel. No parque de entretenimento, a escolha apregoada como saudavel eram 10 morangos com 10 centimetros de chantilli em cima. Nao estou a gozar. Os americanos nao podiam deixar de ser gordos.
No meu departamento de estudos sociais, ha umas pessoas que estudam incentivos para as pessoas emagrecerem. Muita ciencia, muita ciencia, para se tapar o sol com a peneira.
Adiante.
Agora aqui faz frio, que e como quem diz, quem nao tem casaco morre. Tambem nao vejo caes nem gatos vadios, e nao e por causa dos restaurantes chineses, que aqui nao os ha como em Portugal. Devem ficar brancos com a beleza magica da neve. Felizmente os americanos invadiram o Iraque, continuam a assegurar um fluxo continuo de petroleo e, para os humanos, as casas sao sobreaquecidas. Quer isto dizer que quando neva la fora, se pode andar de manga curta ca dentro. E as vezes tem-se que abrir a janela porque mesmo assim faz calor demais... Hum, nunca o desperdicio americano me soube tao bem.
(Estar aqui faz-me olhar com compaixao para os anuncios a incentivar a reciclagem no nosso pais... Tao ingenuos que somos: mesmo que quisessemos tinhamos que nos esforcar para chegar aos calcanhares energeticos dos nossos heated brothers).
Passou o halloween, daqui a dois dias e o thanksgiving, esta a chegar o Natal.
O halloween e como o nosso carnaval, mas com mais gente esquisita e pintada na rua. As pessoas dao mesmo chocolatinhos. Dois dos meus professores trouxeram o resto dos doces para a aula. Bom.
E thanksgiving para uns, terror para outros. Todo o peru tem a sua hora, especialmente daqui a dois dias. Vou passar o meu thanksgiving em casa de emigrantes, mas um dos meus professores convidou a malta tuga para um almoco a americana. E tempo de familia.
Familia... O Natal esta ai. Custa-me a acreditar que ha seis meses que nao abraco a minha mae, nao vejo o meu irmao nem digo ola ao meu pai cara a cara. Que Lisboa esta tao longe e os amigos do outro lado do mar a viver outras coisas. As vezes a normalidade americana e-me estranha. Dou por mim a andar pelas ruas de uma cidade que nao me conhece, como quem anda por um mundo alternativo, que e o meu mas nao e bem o meu.
Saudade.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Souvenir
Epá, estou emocionada.
Já que me esqueci que as televisões esqueceram o Nader (quem?) e os outros totós da extrema-direita americana.
Já me esqueci do bailout. Porque me hei-de lembrar neste momento que o JPMorgan anda a brincar às mergers e acquisitions com o dinheiro do bailout? A lógica capitalista luta sempre pela eficiência económica, provavelmente estão certos.
Já me esqueci do dinheiro que o Obama angariou. Até porque ele começou mais pobrezinho que Job. Foi o dom dele que fez esta vitória.
Fui tomada pela loucura democrática americana.
O meu professor de história perguntou à "portuguese team" se tínhamos assistido à vitória da democracia na américa, a um virar de história histórico.
Sim, assisti. Ontem, num bar, a vitória arrasadora nem me deu desculpas para me deitar tarde. Ao inicío da noite, já se sabia que o Obama tinha ganho. No bar ouvia-se música ("A barraca abana" como dizia uma colega minha do doutoramento) e toda a gente torcia pelo afro-americano, com grandes gritos quando a cnn declarava um estado democrático.
A música foi apenas interrompida pelo discurso do Obama, the President Elect. Epá, fiquei com a lágrima ao canto do olho (como a Sarah Palin, ao pé do McCain). Isto sim, é falar. Percebe-se ali um certo sabor a púlpito (quiçá transpirado pelos anos a ouvir o Wright?). Biblíco.
O McCain, uns minutos antes, não tinha ficado atrás. Ficou sim, muito à frente do avôzinho caquético que acusou o Obama de se associar ao terrorista Ayers no último debate presidencial. Voou acima da divisão presidencial, evitou os boos da populaça e pediu a todos união e ajuda em prol do novo líder. Arcou com as culpas da derrota republica. Bonito.
E hoje de manhã o mundo era diferente. Os shows políticos que vi lembraram-se que os afro-americanos às vezes também opinavam e mandaram vir jornalistas de cor.
Na cnn e no new york times só se veêm afro-americanos felizes.
Eu também quero por o país primeiro, mudar o mundo e ganhar umas eleições (ou o Nobel).

Yes, we can.
E digam-me lá se eu não sou muito mais gira que o McCain (sim, a foto foi mesmo tirada depois de ele ter feito um discurso naquele púlpito).
Já que me esqueci que as televisões esqueceram o Nader (quem?) e os outros totós da extrema-direita americana.
Já me esqueci do bailout. Porque me hei-de lembrar neste momento que o JPMorgan anda a brincar às mergers e acquisitions com o dinheiro do bailout? A lógica capitalista luta sempre pela eficiência económica, provavelmente estão certos.
Já me esqueci do dinheiro que o Obama angariou. Até porque ele começou mais pobrezinho que Job. Foi o dom dele que fez esta vitória.
Fui tomada pela loucura democrática americana.
O meu professor de história perguntou à "portuguese team" se tínhamos assistido à vitória da democracia na américa, a um virar de história histórico.
Sim, assisti. Ontem, num bar, a vitória arrasadora nem me deu desculpas para me deitar tarde. Ao inicío da noite, já se sabia que o Obama tinha ganho. No bar ouvia-se música ("A barraca abana" como dizia uma colega minha do doutoramento) e toda a gente torcia pelo afro-americano, com grandes gritos quando a cnn declarava um estado democrático.
A música foi apenas interrompida pelo discurso do Obama, the President Elect. Epá, fiquei com a lágrima ao canto do olho (como a Sarah Palin, ao pé do McCain). Isto sim, é falar. Percebe-se ali um certo sabor a púlpito (quiçá transpirado pelos anos a ouvir o Wright?). Biblíco.
O McCain, uns minutos antes, não tinha ficado atrás. Ficou sim, muito à frente do avôzinho caquético que acusou o Obama de se associar ao terrorista Ayers no último debate presidencial. Voou acima da divisão presidencial, evitou os boos da populaça e pediu a todos união e ajuda em prol do novo líder. Arcou com as culpas da derrota republica. Bonito.
E hoje de manhã o mundo era diferente. Os shows políticos que vi lembraram-se que os afro-americanos às vezes também opinavam e mandaram vir jornalistas de cor.
Na cnn e no new york times só se veêm afro-americanos felizes.
Eu também quero por o país primeiro, mudar o mundo e ganhar umas eleições (ou o Nobel).

Yes, we can.
E digam-me lá se eu não sou muito mais gira que o McCain (sim, a foto foi mesmo tirada depois de ele ter feito um discurso naquele púlpito).
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Lessons from the elections
Eu sei que isto é clichet, mas vou começar o post assim: faltam cerca de duas a três horas para sabermos os resultados das eleições mais mediáticas do momento. É claro que, como o resto do mundo, estou à espera.
Já consumi o lixo da cnn e do new york times, que fazem notícias sobre as notícias que não aparecem. Sem surpresas, ainda não se sabe quem é o vencedor. No entanto, aqui, na pátria da liberdade e da democracia (nos EUA, a pátria da igualdade democrática é a América, esqueçam a França, devaneio de europeus), americanos com a lágrima ao canto do olho falam da nação, de patriotismo e mudança. Até a Palin acha que é tempo de mudar. Cá para mim, é emoção a mais.
É óbvio que estou a torcer pelo Obama. Confesso que até gosto do tipo. Mas ele é tão magrinho, novinho, (bem-pago?), coitadinho. O que pode ele fazer?
Espero que pelo menos seja o fim da américa radical cristã. Que deus seja deixado em paz e que o sexo deixe de ser considerado pecado nacional para os não-casados.
Que haja mais parlapié, conversa, efectivas negociações com as Nações Unidas (esse pormenor).
E vamos a ver o que acontece no Iraque. E no Irão.
Mas esta campanha não foi só histórica para os afro-americanos: foi o meu ritual iniciático na política made in USA. Não estava à espera, mas fiquei desiludida.
Voei para a américa inspirada pelo título do livro "the audacity to hope" do Barack. Isto cheirava-me a pessoas racionais e altruístas, a um nível de discussão elevado, à política de ideais públicos.
Ah! É óbvio que me esqueci que os candidatos são feitos por quem os paga (as empresas que receberam os 700 bilhões de dólares). E, depois de ver a Palin, a Obama e o McCain em discurso directo; depois de ver como as eleições são engendradas por tipos como o Rove, a minha esperança inicial resume-se a esperar que ganhe o menos mau. Que é como quem diz, o menos branco.
A américa tem muitas coisas boas, mas tem fraquezas que a tornam mais susceptível de eleger tipos como o Bush:
: Só tem dois partidos. É óbvio que há mais candidatozinhos (incluindo o Nader) a concorrer. No entanto, estes são tão marginais que só por engano é que se tropeça neles. Infelizmente, já soube que em Portugal também se está a cozinhar um esquema que limita o número de candidatos e ideias. É pena.
Existe um modelo económico - o modelo de Hotelling - que prevê que, numa praia que se estende de 0 a 1, dois vendedores de gelados que queiram maximizar os lucros se situem exactamente no meio*. Isto serve de metáfora para tudo e mais alguma coisa, desde localização de lojas numa rua, convergência de canais de televisão, até uniformização de candidatos.
: Aqui existem os issue-voters. Isto são pessoas que acreditam tanto em algumas coisas que o seu voto é determinado pela posição do candidato em relação ao aborto ou à discriminação gay. É óbvio que estes votantes são altamente manipuláveis por "Smear campaigns" sem escrúpulos. A vitória do Bush em 2004 (e em 2000, quando se afirmou contra o McCain como candidato republicano) é em parte devida à exploração desta fragilidade (por tipos como o Karl Rove).
: A abstenção é imensa. Votação recorde quer dizer que, se calhar, votam 64% hoje. Nas últimas eleições, votaram cerca de 54%. Isto quer dizer que fanáticos excitados como os issue-voters podem deitar tudo a perder. (Em Portugal, em 2005, para a AR, abstiveram-se 35% das pessoas - não sei se estes números incluem pessoas que não se registaram).
http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0001684&selTab=tab2
: Numa nação agarrada à TV, a quantidade de dinheiro que se consegue angariar para fazer anúncios é decisiva. Quem mais aparece, mais ganha. Se for em prime-time, melhor.
: Num derradeiro afastamento da racionalidade, a personalidade, família e integridade do candidato, aqui, são da mais extrema importância. As mulheres dos candidatos são figuras públicas. Os filhos também aparecem nos comícios. Não me parece que candidatos divorciados tenham muito saída, coitados.
: É um país enorme, com pouco tempo para ver notícias. Daqui sai que a complexidade de um programa eleitoral só a custo pode ser digerida pelo americano comum.
É também um país dividido. A maior parte das notícias (tirando a Fox) é escrita por democratas. Cheira-me que é por isso que a Palin é vista como uma escolha tão negativa. Na verdade, depois do Obama, ela é a pessoa que atrai mais pessoas para comícios.
Enfim, god bless us all.
Já consumi o lixo da cnn e do new york times, que fazem notícias sobre as notícias que não aparecem. Sem surpresas, ainda não se sabe quem é o vencedor. No entanto, aqui, na pátria da liberdade e da democracia (nos EUA, a pátria da igualdade democrática é a América, esqueçam a França, devaneio de europeus), americanos com a lágrima ao canto do olho falam da nação, de patriotismo e mudança. Até a Palin acha que é tempo de mudar. Cá para mim, é emoção a mais.
É óbvio que estou a torcer pelo Obama. Confesso que até gosto do tipo. Mas ele é tão magrinho, novinho, (bem-pago?), coitadinho. O que pode ele fazer?
Espero que pelo menos seja o fim da américa radical cristã. Que deus seja deixado em paz e que o sexo deixe de ser considerado pecado nacional para os não-casados.
Que haja mais parlapié, conversa, efectivas negociações com as Nações Unidas (esse pormenor).
E vamos a ver o que acontece no Iraque. E no Irão.
Mas esta campanha não foi só histórica para os afro-americanos: foi o meu ritual iniciático na política made in USA. Não estava à espera, mas fiquei desiludida.
Voei para a américa inspirada pelo título do livro "the audacity to hope" do Barack. Isto cheirava-me a pessoas racionais e altruístas, a um nível de discussão elevado, à política de ideais públicos.
Ah! É óbvio que me esqueci que os candidatos são feitos por quem os paga (as empresas que receberam os 700 bilhões de dólares). E, depois de ver a Palin, a Obama e o McCain em discurso directo; depois de ver como as eleições são engendradas por tipos como o Rove, a minha esperança inicial resume-se a esperar que ganhe o menos mau. Que é como quem diz, o menos branco.
A américa tem muitas coisas boas, mas tem fraquezas que a tornam mais susceptível de eleger tipos como o Bush:
: Só tem dois partidos. É óbvio que há mais candidatozinhos (incluindo o Nader) a concorrer. No entanto, estes são tão marginais que só por engano é que se tropeça neles. Infelizmente, já soube que em Portugal também se está a cozinhar um esquema que limita o número de candidatos e ideias. É pena.
Existe um modelo económico - o modelo de Hotelling - que prevê que, numa praia que se estende de 0 a 1, dois vendedores de gelados que queiram maximizar os lucros se situem exactamente no meio*. Isto serve de metáfora para tudo e mais alguma coisa, desde localização de lojas numa rua, convergência de canais de televisão, até uniformização de candidatos.
: Aqui existem os issue-voters. Isto são pessoas que acreditam tanto em algumas coisas que o seu voto é determinado pela posição do candidato em relação ao aborto ou à discriminação gay. É óbvio que estes votantes são altamente manipuláveis por "Smear campaigns" sem escrúpulos. A vitória do Bush em 2004 (e em 2000, quando se afirmou contra o McCain como candidato republicano) é em parte devida à exploração desta fragilidade (por tipos como o Karl Rove).
: A abstenção é imensa. Votação recorde quer dizer que, se calhar, votam 64% hoje. Nas últimas eleições, votaram cerca de 54%. Isto quer dizer que fanáticos excitados como os issue-voters podem deitar tudo a perder. (Em Portugal, em 2005, para a AR, abstiveram-se 35% das pessoas - não sei se estes números incluem pessoas que não se registaram).
http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0001684&selTab=tab2
: Numa nação agarrada à TV, a quantidade de dinheiro que se consegue angariar para fazer anúncios é decisiva. Quem mais aparece, mais ganha. Se for em prime-time, melhor.
: Num derradeiro afastamento da racionalidade, a personalidade, família e integridade do candidato, aqui, são da mais extrema importância. As mulheres dos candidatos são figuras públicas. Os filhos também aparecem nos comícios. Não me parece que candidatos divorciados tenham muito saída, coitados.
: É um país enorme, com pouco tempo para ver notícias. Daqui sai que a complexidade de um programa eleitoral só a custo pode ser digerida pelo americano comum.
É também um país dividido. A maior parte das notícias (tirando a Fox) é escrita por democratas. Cheira-me que é por isso que a Palin é vista como uma escolha tão negativa. Na verdade, depois do Obama, ela é a pessoa que atrai mais pessoas para comícios.
Enfim, god bless us all.
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