Não sei se aí na Europa chega a onda de admiração pelos Obamas.
Aqui na América são a nova paixão do povo. Apaixonados, belos, charmosos, pais de família e líderes do "free-world" têm o mundo a seus pés.
Nas revistas do supermercado, os Obamas suplantaram tudo e todos. Coitada da Paris e da Britney. Ninguém fala já de canções e escandaleiras. Agora, o que toda a gente quer saber é o que os Obama comem e quantos beijinhos dão antes de deitar. Muito mais importante do que isso, quando é que vem o novo puppy para a Casa Branca. Simultaneamente, a Michelle está a tornar-se um novo fashion icon e apareceu na Vogue com um vestido rosa.
Por outro lado, a emulação dos líderes traz novos paradigmas para o espaço público. Antes do Obama, via zero negros a fazerem publicidade. Agora eles estão em tudo o que é champô. Yes, black is the new white.
Parte não é responsabilidade deles. Neste momento, está toda a gente excitada com política aqui pela américa. Ele é o budget, ele é a vontade do obama de fazer amigos com os republicanos, ele é fechar Guantánamo (e deportar os pobres coitados para a europa), ele é os problemas com impostos dos secretários (ministros), eu sei lá, tudo é notícia. O que o povo quer é a crise atrás das costas, e saber o que fazem os líderes nestes tempos de aflição. Mais do que isso, os Obama vendem porque, apaixonados, belos e novos, são a imagem de uma mensagem de esperança e nova vitalidade. No espaço da incerteza e da falência de bancos, toda a gente quer acreditar que tudo é possível.
Mas também nem tudo é rosas. Já vi muitos editoriais liberais surpreendidos com a liderança Obama. Um era do NYT sobre a manutenção do segredo de estado nalguns presos de Guantanamo. Muitos estão no WSJ, onde o Karl Rove escreve.
A ver no que isto dá.
Yes, we can.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Procastination II
Adoro a CNN. A sério. Adoro a CNN.
É tipo a TVI cá do sítio, mas com muito mais horror e sangue, dado que estamos nos Estados Unidos e as armas vendem como pãezinhos quentes. Além disso, no país da eficiência, cada notícia escabrosa vem acompanhada de pequenos bullets que resumem a tragédia a um rodapé da vida diária "* Pai discutiu com mãe; *Mãe matou dois filhos; * Pai levou a família para o hospital".
A CNN tem sempre um link que nos distrai, uma pessoa a quem aconteceu uma coisa mais horrível que a nós. Que conforto.
No outro dia, vi que no meu estado um pai de família foi alvejado num cinema por fazer barulho (Acho bem, o cinema é para se estar calado). E um puto de 11 anos matou a futura madrasta que, por acaso, estava grávida. É assim, dia sim, dia não, há uns quantos maluquitos, alguns precoces que pegam na arma e matam alguém. É claro que isso faz sempre notícia.
Mas a CNN tem classe. A CNN não é só sangue. A CNN também fala de política. É claro que é preciso escolher as notícias. Ontem, por exemplo, havia uma muito boa sobre a Michelle Obama. A nova Primeira Dama é a mais cool de sempre, um fashion icon, uma role model, a Mãe primordial, eu sei lá. E agora a nova moda é andar de braços destapados no Inverno como a Primeira Dama, porque ela escolhe uns vestidinhos sem mangas todos giros para o Congresso.
As notícias também apanham os desgraçadinhos de sempre. Agora, por causa da crise, há sempre um link para um coitado que perdeu tudo "De Beverly Hills para a quinta a apanhar esterco"; "De 100 mil por ano a engraxar sapatos". Giro. Hoje havia uma notícia sobre um pai desesperado, antigo cidadão modelo, que tentou assaltar um banco. Surpresa, surpresa, foi apanhado.
Mas é claro que se não tivesse que trabalhar não lia a CNN.
É tipo a TVI cá do sítio, mas com muito mais horror e sangue, dado que estamos nos Estados Unidos e as armas vendem como pãezinhos quentes. Além disso, no país da eficiência, cada notícia escabrosa vem acompanhada de pequenos bullets que resumem a tragédia a um rodapé da vida diária "* Pai discutiu com mãe; *Mãe matou dois filhos; * Pai levou a família para o hospital".
A CNN tem sempre um link que nos distrai, uma pessoa a quem aconteceu uma coisa mais horrível que a nós. Que conforto.
No outro dia, vi que no meu estado um pai de família foi alvejado num cinema por fazer barulho (Acho bem, o cinema é para se estar calado). E um puto de 11 anos matou a futura madrasta que, por acaso, estava grávida. É assim, dia sim, dia não, há uns quantos maluquitos, alguns precoces que pegam na arma e matam alguém. É claro que isso faz sempre notícia.
Mas a CNN tem classe. A CNN não é só sangue. A CNN também fala de política. É claro que é preciso escolher as notícias. Ontem, por exemplo, havia uma muito boa sobre a Michelle Obama. A nova Primeira Dama é a mais cool de sempre, um fashion icon, uma role model, a Mãe primordial, eu sei lá. E agora a nova moda é andar de braços destapados no Inverno como a Primeira Dama, porque ela escolhe uns vestidinhos sem mangas todos giros para o Congresso.
As notícias também apanham os desgraçadinhos de sempre. Agora, por causa da crise, há sempre um link para um coitado que perdeu tudo "De Beverly Hills para a quinta a apanhar esterco"; "De 100 mil por ano a engraxar sapatos". Giro. Hoje havia uma notícia sobre um pai desesperado, antigo cidadão modelo, que tentou assaltar um banco. Surpresa, surpresa, foi apanhado.
Mas é claro que se não tivesse que trabalhar não lia a CNN.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Go, Steelers, go!
Lembram-se da polémica sobre o mamilo da Janet Jackson a aparecer na televisão, há uns anos atrás? Pois bem, esse mamilo apareceu no intervalo de um dos clímaxes anuais da televisão americana: a Super Bowl.
A SuperBowl é nada mais, nada menos, que uma SuperTaça - o jogo que decide quem é a melhor, melhoríssima e mais bestial equipa de futebol americano dos EUA, mundo e arredores.
A minha cidade, Pittsburgh, é mãe dos Steelers, uma das melhores equipas de football dos States. Calculo que o nome tenha a ver com Steel (esta é a cidade de Andrew Carnegie, after all). Em todo o caso, os tipos são bons.
Foram tão bons que chegaram à final, disputada no Domingo passado. Pelo meio, deixaram a cidade de alvoroço e obrigaram-me a aprender as regras de futebol americano. (É difícil, meus amigos, é difícil.)
Há duas semanas que a cidade sabia que podia ganhar a SuperTaça. Na minha universidade (ainda) há logos dos Steelers um pouco por toda a parte e os autocarros, além do destino habitual, diziam, até ao Domingo passado, "Go, Steelers, Go!". Sendo o jogo num Domingo, na 2ª as escolas públicas abriram 2h mais tarde, para dar tempo para festejar.
É claro que fui ver o jogo para um bar, equipada com a minha Terrible Towel. A Terrible Towel é um pedaço oficial de pano amarelo que diz Terrible Towel (sim, isso mesmo). É um objecto tradicional de apoio e de claque. Quando acontece alguma coisa boa, a Steeler Nation agita a Terrible Towel (a minha era special edition, ainda por cima).
Pois bem, comecei assim meio desapaixonada a ver um jogo muito competitivo. Acabei aos urros a puxar pelos Pittsburghianos. Sim, soltei a Steeler que há em mim.
Resultou. Os Steelers ganharam.
Mas a SuperBowl é muito mais do que um jogo. A SuperBowl é a quintessência do espetáculo americano, dos anúncios ao show do intervalo, passando pelo jogo. Com milhões a assistirem, cada pedaço de 30'' de anúncios custou milhões de dólares. Os anúncios em si constitutem o clímax da arte de publicitar e são quase tão badalados como o jogo em si. (Verdade. Um dia depois do jogo a CNN tinha tantos links para o jogo como links para os melhores e piores anúncios). Fazer xixi, só depois do jogo, portanto.
Outro pormenor é o show do intervalo. Desta vez foi o Boss a agitar as massas. Pior que os anúncios.
Entretanto, depois do jogo, foi tempo para brincar às buzinas e para soltar o hooligan que há em todos nós. Em Oakland, a parte da cidade dominada por estudantes universitários (undergrads), a alegria era muita e esfuziava de várias maneiras. Havia muita gente contente aos abraços, a assistir a uns quantos que partiam montras ou faziam fogueiras com material avulso como barreiras da polícia e arbustos públicos. Uma paragem de autocarro foi destruída e um carro virado. Quatro helicópteros (alguns de televisão) observavam a multidão do alto e havia polícias a cavalo e de carro.
Não gostei. Não me senti segura ou feliz. O chão escorregava e as pessoas eram brutas. Não havia música como vi em Lisboa durante o Euro mas sim foguetes lançados para o ar. Cheirava a álcool e a plástico queimado, a histeria sem razão. (E só me lembrei que nestas terras qualquer um traz uma pistola para um sítio destes e começa a disparar. Sad, but true.)
Depois, fui para casa dormir.
A SuperBowl é nada mais, nada menos, que uma SuperTaça - o jogo que decide quem é a melhor, melhoríssima e mais bestial equipa de futebol americano dos EUA, mundo e arredores.
A minha cidade, Pittsburgh, é mãe dos Steelers, uma das melhores equipas de football dos States. Calculo que o nome tenha a ver com Steel (esta é a cidade de Andrew Carnegie, after all). Em todo o caso, os tipos são bons.
Foram tão bons que chegaram à final, disputada no Domingo passado. Pelo meio, deixaram a cidade de alvoroço e obrigaram-me a aprender as regras de futebol americano. (É difícil, meus amigos, é difícil.)
Há duas semanas que a cidade sabia que podia ganhar a SuperTaça. Na minha universidade (ainda) há logos dos Steelers um pouco por toda a parte e os autocarros, além do destino habitual, diziam, até ao Domingo passado, "Go, Steelers, Go!". Sendo o jogo num Domingo, na 2ª as escolas públicas abriram 2h mais tarde, para dar tempo para festejar.
É claro que fui ver o jogo para um bar, equipada com a minha Terrible Towel. A Terrible Towel é um pedaço oficial de pano amarelo que diz Terrible Towel (sim, isso mesmo). É um objecto tradicional de apoio e de claque. Quando acontece alguma coisa boa, a Steeler Nation agita a Terrible Towel (a minha era special edition, ainda por cima).
Pois bem, comecei assim meio desapaixonada a ver um jogo muito competitivo. Acabei aos urros a puxar pelos Pittsburghianos. Sim, soltei a Steeler que há em mim.
Resultou. Os Steelers ganharam.
Mas a SuperBowl é muito mais do que um jogo. A SuperBowl é a quintessência do espetáculo americano, dos anúncios ao show do intervalo, passando pelo jogo. Com milhões a assistirem, cada pedaço de 30'' de anúncios custou milhões de dólares. Os anúncios em si constitutem o clímax da arte de publicitar e são quase tão badalados como o jogo em si. (Verdade. Um dia depois do jogo a CNN tinha tantos links para o jogo como links para os melhores e piores anúncios). Fazer xixi, só depois do jogo, portanto.
Outro pormenor é o show do intervalo. Desta vez foi o Boss a agitar as massas. Pior que os anúncios.
Entretanto, depois do jogo, foi tempo para brincar às buzinas e para soltar o hooligan que há em todos nós. Em Oakland, a parte da cidade dominada por estudantes universitários (undergrads), a alegria era muita e esfuziava de várias maneiras. Havia muita gente contente aos abraços, a assistir a uns quantos que partiam montras ou faziam fogueiras com material avulso como barreiras da polícia e arbustos públicos. Uma paragem de autocarro foi destruída e um carro virado. Quatro helicópteros (alguns de televisão) observavam a multidão do alto e havia polícias a cavalo e de carro.
Não gostei. Não me senti segura ou feliz. O chão escorregava e as pessoas eram brutas. Não havia música como vi em Lisboa durante o Euro mas sim foguetes lançados para o ar. Cheirava a álcool e a plástico queimado, a histeria sem razão. (E só me lembrei que nestas terras qualquer um traz uma pistola para um sítio destes e começa a disparar. Sad, but true.)
Depois, fui para casa dormir.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
My name is Winter, Cold Winter.
Amigos, por aqui faz frio. Muito frio.
Estão cerca de -15º Celsius, e com os factores de ajustamento devido ao vento, os peritos metereológicos dizem que isso equivale a -25ºC. Duas dezenas atrás do Zero. Epá. É muito. É demais.
Este frio infiltra-se no corpo e no espírito. A cara arde quando se anda na rua. O nariz doi. Mesmo com luvas, os dedos parece que se vão partir. As pontas ficam queimadas e doem no dia seguinte.
A percepção do tempo agudiza-se. Pequenos momentos parecem tormentos intermináveis e noutros pequenos instantes é o paraíso que desceu à terra.
Encontrar a chave de casa e abrir a porta do prédio é um pequeno e diário tormento de Tântalo. À beira do paraíso, o frio parece mais frio.
Entrar em casa e sentir o calor a entrar no corpo é um precioso milagre da civilização moderna.
Qualquer minuto na rua é um minuto a mais.
Como compreendo agora a tradicional reserva sueca, norueguesa e finlandesa. Quando está muito frio, só muito poucas e muito boas razões nos fazem sair de casa. Não é qualquer meio-conhecido que nos arrasta para o Bairro. Com tanto frio, só a certeza do reencontro com bons e velhos amigos nos faz suportar a geada. E abraços e outros gestos de afeição tornam-se mais difícieis por cima de várias camadas de roupa. Além de difíceis, são desconfortáveis, porque esticar o corpo com abraços e deixar a pele a descoberto é um convite ao arrepio.
A casa tem outro significado. Solidão aconchegada é o que sabe melhor quando faz frio.
Nunca pensei pensar assim. No Verão, às vezes tinha conversas com os meus amigos pittsburghianos sobre o Inverno. O que se fazia, o quê, como e onde. Espantados, diziam-me "Está frio! A única coisa que apetece é ficar em casa.". Pensei que toda a gente fosse assim menos eu.
Enganei-me.
A única coisa bonita é a neve. Ainda não me cansei. Por aqui neva muito, e de várias maneiras. Às vezes neva chuva congelada e percebe-se que os flocos são pesados. Outras vezes neva suavemente, e cristais brancos invadem as ruas e tornam o ambiente mais natalíceo e mágico. Depois de pairarem no ar, param no pelo das luvas e consegue-se perceber a sua preciosa estrutura de pequenas estrelas. Outras vezes nevam flocos grandes e leves, torrencialmente. Tapam tudo de branco. Vêm-me à memória as Páscoas que passava com os meus pais na Serra da Estrela e sinto-me bem e em casa.
É assim que está a ser o meu primeiro Inverno americano. Branco, e difícil.
Estão cerca de -15º Celsius, e com os factores de ajustamento devido ao vento, os peritos metereológicos dizem que isso equivale a -25ºC. Duas dezenas atrás do Zero. Epá. É muito. É demais.
Este frio infiltra-se no corpo e no espírito. A cara arde quando se anda na rua. O nariz doi. Mesmo com luvas, os dedos parece que se vão partir. As pontas ficam queimadas e doem no dia seguinte.
A percepção do tempo agudiza-se. Pequenos momentos parecem tormentos intermináveis e noutros pequenos instantes é o paraíso que desceu à terra.
Encontrar a chave de casa e abrir a porta do prédio é um pequeno e diário tormento de Tântalo. À beira do paraíso, o frio parece mais frio.
Entrar em casa e sentir o calor a entrar no corpo é um precioso milagre da civilização moderna.
Qualquer minuto na rua é um minuto a mais.
Como compreendo agora a tradicional reserva sueca, norueguesa e finlandesa. Quando está muito frio, só muito poucas e muito boas razões nos fazem sair de casa. Não é qualquer meio-conhecido que nos arrasta para o Bairro. Com tanto frio, só a certeza do reencontro com bons e velhos amigos nos faz suportar a geada. E abraços e outros gestos de afeição tornam-se mais difícieis por cima de várias camadas de roupa. Além de difíceis, são desconfortáveis, porque esticar o corpo com abraços e deixar a pele a descoberto é um convite ao arrepio.
A casa tem outro significado. Solidão aconchegada é o que sabe melhor quando faz frio.
Nunca pensei pensar assim. No Verão, às vezes tinha conversas com os meus amigos pittsburghianos sobre o Inverno. O que se fazia, o quê, como e onde. Espantados, diziam-me "Está frio! A única coisa que apetece é ficar em casa.". Pensei que toda a gente fosse assim menos eu.
Enganei-me.
A única coisa bonita é a neve. Ainda não me cansei. Por aqui neva muito, e de várias maneiras. Às vezes neva chuva congelada e percebe-se que os flocos são pesados. Outras vezes neva suavemente, e cristais brancos invadem as ruas e tornam o ambiente mais natalíceo e mágico. Depois de pairarem no ar, param no pelo das luvas e consegue-se perceber a sua preciosa estrutura de pequenas estrelas. Outras vezes nevam flocos grandes e leves, torrencialmente. Tapam tudo de branco. Vêm-me à memória as Páscoas que passava com os meus pais na Serra da Estrela e sinto-me bem e em casa.
É assim que está a ser o meu primeiro Inverno americano. Branco, e difícil.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Qualifiers and ski
Na semana passada tive que fazer, como qualquer aluno num doutoramento americano, os qualifiers. Os qualifiers qualificam o aspirante a doutor a permanecer no doutoramento. Para mim, consistiram em 1 exame por dia numa semana (tirando um dia de intervalo), testando os meus conhecimentos das matérias (todas) que aprendi durante um ano e meio. No seu melhor, foram feitos de perguntas inteligentes e justas que até é interessante responder. No seu pior, tinham rasteiras mazinhas e mesquinhas que me tiraram a concentração, de tal forma me senti injustiçada pela pergunta.
Em todo o caso, os qualifiers rodeiam-se sempre de angústia e nervosismo. É difícil não pensar nas consequências destes exames. Ao contrário de outros testes, nos qualifiers não se tem nota. Ou passas ou chumbas, e se chumbares tudo o que fizeste no doutoramento é irrelevante. Vais para casa e arranjas um trabalho. Morreste na praia. Adeus e não há próxima.
É claro que exagero. Isto é só o que se pensa no início dos exames. A sequência de exames é tal que, mais ou menos a meio da semana, é difícil manter a lucidez. O estado de espírito passa de um nervosismo produtivo a um "Fuck it" doentio. A cada dia que passa é mais difícil estudar.
Enfim, depois desta semana tive a boa ideia de ir esquiar para celebrar. Boa ideia porque percebi que há uma coisa ainda pior que os qualifiers: andar de ski. Mil vezes outra semana de exames do que descer uma colina de skis. Mil vezes.
Só andar com as botas de ski é um pesadelo. São como armaduras de gesso que não deixam a perna mover bem. Botas de ski e skis, pior um bocadinho. Mas o pior, pior é mesmo botas de ski em skis em cima da neve. Não percebo.
O meu jeito típico para desportos veio mais uma vez ao de cima. A minha coordenação motora, exímia em cima de terra firme, mais exímia ficou em cima de gelo escorregadio. Em três incursões na neve, consegui chocar: i) contra o meu namorado; ii) contra uma fila de pessoas; iii) contra o meu namorado outra vez.
Fiquei exasperada. Comecei a antagonizar a neve. Nervosa, ansiava por terra firme. Ainda pensei, à Obi Wan, "Tu e a neve são um, insere-te no movimento". Qual quê. A neve era uma, eu outra, e via-se quem era mais inteligente. A neve ria-se às gargalhadas enquanto eu andava atormentada com visões de skis a enfiarem-se por tudo quanto é orgão sensível, com joelhos e pernas torcidas.
A boa notícia é que comprei umas luvas hiper-super-cromas. E que se tiver que fazer qualifiers outra vez, pensarei: "pelo menos não é ski".
Em todo o caso, os qualifiers rodeiam-se sempre de angústia e nervosismo. É difícil não pensar nas consequências destes exames. Ao contrário de outros testes, nos qualifiers não se tem nota. Ou passas ou chumbas, e se chumbares tudo o que fizeste no doutoramento é irrelevante. Vais para casa e arranjas um trabalho. Morreste na praia. Adeus e não há próxima.
É claro que exagero. Isto é só o que se pensa no início dos exames. A sequência de exames é tal que, mais ou menos a meio da semana, é difícil manter a lucidez. O estado de espírito passa de um nervosismo produtivo a um "Fuck it" doentio. A cada dia que passa é mais difícil estudar.
Enfim, depois desta semana tive a boa ideia de ir esquiar para celebrar. Boa ideia porque percebi que há uma coisa ainda pior que os qualifiers: andar de ski. Mil vezes outra semana de exames do que descer uma colina de skis. Mil vezes.
Só andar com as botas de ski é um pesadelo. São como armaduras de gesso que não deixam a perna mover bem. Botas de ski e skis, pior um bocadinho. Mas o pior, pior é mesmo botas de ski em skis em cima da neve. Não percebo.
O meu jeito típico para desportos veio mais uma vez ao de cima. A minha coordenação motora, exímia em cima de terra firme, mais exímia ficou em cima de gelo escorregadio. Em três incursões na neve, consegui chocar: i) contra o meu namorado; ii) contra uma fila de pessoas; iii) contra o meu namorado outra vez.
Fiquei exasperada. Comecei a antagonizar a neve. Nervosa, ansiava por terra firme. Ainda pensei, à Obi Wan, "Tu e a neve são um, insere-te no movimento". Qual quê. A neve era uma, eu outra, e via-se quem era mais inteligente. A neve ria-se às gargalhadas enquanto eu andava atormentada com visões de skis a enfiarem-se por tudo quanto é orgão sensível, com joelhos e pernas torcidas.
A boa notícia é que comprei umas luvas hiper-super-cromas. E que se tiver que fazer qualifiers outra vez, pensarei: "pelo menos não é ski".
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
American spirit
Posso resmungar porque a comida é esquisita, suspirar de saudades porque poucas pessoas aqui fazem parte da minha família, posso ansiar por ar a saber a maresia, mas a verdade é que gosto mesmo de estar aqui.
Das coisas que é mais fascinante na América, sobretudo para uma portuguesa habituada a burocracias lusas, é a eficiência americana.
Isso não quer dizer que não sejam feitos erros. Mas quer dizer que as instituições transpiram um ar de competência que ampara o recém-chegado. Não se perde tempo à procura de gabinetes, as pessoas saudam-nos de chaves nas mãos.
Tive um recente exemplo disso ainda hoje. A FCT atrasou-se a fazer o pagamento da propina. Quando pagaram já as multas iam altas. No meu departamento trataram de tratar das multas. Fiz então uma transferência em Dezembro que ainda não chegou (porque, descobri hoje, houve um engano com o meu nome). Isto é mais tarde que tarde, para prazos americanos. Comecei a receber e-mails do meu departamento por causa da transferência de que não havia notícia (só na minha conta, onde tinha sido debitada).
Tive pesadelos. Na minha cabeça toda a gente sussurrava sobre o meu incumprimento mentiroso. O meu orientador perguntava-me "show me the money" com ar severo.
Hoje, tudo se resolveu ao mesmo tempo. Vou ao serviço de pagamento da minha universidade onde, após confronto com o recibo da transferência, se apercebem que fizeram um erro na atribuição do nome. Com algum pesar, dizem-me que vão fazer o tudo por tudo para ter tudo pronto amanhã, mas que, se calhar, só para a semana me posso registar. O próprio senhor que me atende diz que vai tratar do meu problema. Acredito. Sem saber disto, no meu departamento, as secretárias tinham tratado de meter uma bolsa para mim, para eu me poder registar. Hoje, com orgulho, disseram-me que tinham tratado do meu problema (sem eu lhes pedir).
Tinha confundido preocupação com castigo. A minha alma tuga tinha interpretado os e-mails como perseguição. Não. Elas podiam não estar preocupadas comigo, mas cada um aqui está fundamentalmente preocupado em fazer o seu trabalho. É, de facto, algo que senti quando cheguei aqui.
Existe um optimismo no ar. A senhora que encomenda os tinteiros da impressora está profundamente ciente da importância do seu trabalho. Que é fundamental para o resto do departamento funcionar. Toda a gente se trata por tu. Quando um problema existe, é atacado por todos. Os prazos para acabar qualquer coisa são dias, e dois dias é muito. Cada um se orgulha de fazer o seu trabalho o melhor possível. E do meu orientador (a estrela do departamento) para baixo toda a gente se justifica quando isso não acontece.
A secretária que meteu uma bolsa para mim estava de facto contente com o ter-me ajudado. Nunca suspeitou da minha palavra ou honestidade. E, no fundo, ficou orgulhosa de ter resolvido um problema que também era o dela.
Isto tudo contrasta com aquilo que conheci no técnico, enquanto aluna e trabalhadora. Quando existe um problema, ou encontras um simpático que o resolve ou são semanas (indeterminadas) até o assunto se encerrar. Os senhores da secretaria são antipáticos. Um problema é sempre de ninguém.
Aqui o sistema de recompensas é diferente.
Mas não é só isso. Parece-me que a relação dos americanos com o fracasso é fundamentalmente diferente da conturbada relação lusa. Quando existe um problema, ele aponta vergonhosamente para a nossa culpa de incompetentes. Envergonhados, ocultamos o problema e fazemos de conta que não é nosso. Algo que não funciona diz-nos que somos maus e feios. O problema é nosso.
Os americanos não se identificam com o fracasso. O paradigma americano é outro. Na terra cornucopiamente rica da América, existe suficiente de tudo para todos. Como tal, existe uma crença fundamental na meritocracia e competição. No seu melhor, isso diz que cada um é capaz de qualquer coisa porque existe suficiente para todos. O fracasso é natural para aqueles que tentam. E isso é bom. Quando se falha também se aprende. Os americanos identificam-se com a capacidade de solucionar.
Isto é patente nestas pequenas coisas (cada um, do senhor da secretaria às secretárias do meu departamento, se responsabilizam por resolver o meu caso particular) e noutras coisas mais gerais também.
Como sabem, estudo empreendedores. E uma das coisas que se verifica é que o estigma do fracasso varia com o país do Looser. Portugal é dos países onde o estigma é mais exacerbado. A América é o contrário.
E eu noto que reajo de maneira diferente dos meus colegas americanos. Numa leitura sobre diferenças culturais aquando da integração de uma empresa america com outra alemã referia-se que os alemães tiveram que adoptar a prática america de declarar experiências falhadas. E que isso foi feito com muito desconforto. Eu, lusa com super-ego católico, compreendi muito bem os alemães, coitados. Mas, na aula, uma colega americana referiu o contrário "o quão estúpido que é não declarar os falhanços! Como é que alguém pode não deixar de o fazer".
É claro que também existem os mal-educadinhos. Mas em menor quantidade. Aqui, reza o mito, ser bom naquilo que se faz é ser tudo.
Das coisas que é mais fascinante na América, sobretudo para uma portuguesa habituada a burocracias lusas, é a eficiência americana.
Isso não quer dizer que não sejam feitos erros. Mas quer dizer que as instituições transpiram um ar de competência que ampara o recém-chegado. Não se perde tempo à procura de gabinetes, as pessoas saudam-nos de chaves nas mãos.
Tive um recente exemplo disso ainda hoje. A FCT atrasou-se a fazer o pagamento da propina. Quando pagaram já as multas iam altas. No meu departamento trataram de tratar das multas. Fiz então uma transferência em Dezembro que ainda não chegou (porque, descobri hoje, houve um engano com o meu nome). Isto é mais tarde que tarde, para prazos americanos. Comecei a receber e-mails do meu departamento por causa da transferência de que não havia notícia (só na minha conta, onde tinha sido debitada).
Tive pesadelos. Na minha cabeça toda a gente sussurrava sobre o meu incumprimento mentiroso. O meu orientador perguntava-me "show me the money" com ar severo.
Hoje, tudo se resolveu ao mesmo tempo. Vou ao serviço de pagamento da minha universidade onde, após confronto com o recibo da transferência, se apercebem que fizeram um erro na atribuição do nome. Com algum pesar, dizem-me que vão fazer o tudo por tudo para ter tudo pronto amanhã, mas que, se calhar, só para a semana me posso registar. O próprio senhor que me atende diz que vai tratar do meu problema. Acredito. Sem saber disto, no meu departamento, as secretárias tinham tratado de meter uma bolsa para mim, para eu me poder registar. Hoje, com orgulho, disseram-me que tinham tratado do meu problema (sem eu lhes pedir).
Tinha confundido preocupação com castigo. A minha alma tuga tinha interpretado os e-mails como perseguição. Não. Elas podiam não estar preocupadas comigo, mas cada um aqui está fundamentalmente preocupado em fazer o seu trabalho. É, de facto, algo que senti quando cheguei aqui.
Existe um optimismo no ar. A senhora que encomenda os tinteiros da impressora está profundamente ciente da importância do seu trabalho. Que é fundamental para o resto do departamento funcionar. Toda a gente se trata por tu. Quando um problema existe, é atacado por todos. Os prazos para acabar qualquer coisa são dias, e dois dias é muito. Cada um se orgulha de fazer o seu trabalho o melhor possível. E do meu orientador (a estrela do departamento) para baixo toda a gente se justifica quando isso não acontece.
A secretária que meteu uma bolsa para mim estava de facto contente com o ter-me ajudado. Nunca suspeitou da minha palavra ou honestidade. E, no fundo, ficou orgulhosa de ter resolvido um problema que também era o dela.
Isto tudo contrasta com aquilo que conheci no técnico, enquanto aluna e trabalhadora. Quando existe um problema, ou encontras um simpático que o resolve ou são semanas (indeterminadas) até o assunto se encerrar. Os senhores da secretaria são antipáticos. Um problema é sempre de ninguém.
Aqui o sistema de recompensas é diferente.
Mas não é só isso. Parece-me que a relação dos americanos com o fracasso é fundamentalmente diferente da conturbada relação lusa. Quando existe um problema, ele aponta vergonhosamente para a nossa culpa de incompetentes. Envergonhados, ocultamos o problema e fazemos de conta que não é nosso. Algo que não funciona diz-nos que somos maus e feios. O problema é nosso.
Os americanos não se identificam com o fracasso. O paradigma americano é outro. Na terra cornucopiamente rica da América, existe suficiente de tudo para todos. Como tal, existe uma crença fundamental na meritocracia e competição. No seu melhor, isso diz que cada um é capaz de qualquer coisa porque existe suficiente para todos. O fracasso é natural para aqueles que tentam. E isso é bom. Quando se falha também se aprende. Os americanos identificam-se com a capacidade de solucionar.
Isto é patente nestas pequenas coisas (cada um, do senhor da secretaria às secretárias do meu departamento, se responsabilizam por resolver o meu caso particular) e noutras coisas mais gerais também.
Como sabem, estudo empreendedores. E uma das coisas que se verifica é que o estigma do fracasso varia com o país do Looser. Portugal é dos países onde o estigma é mais exacerbado. A América é o contrário.
E eu noto que reajo de maneira diferente dos meus colegas americanos. Numa leitura sobre diferenças culturais aquando da integração de uma empresa america com outra alemã referia-se que os alemães tiveram que adoptar a prática america de declarar experiências falhadas. E que isso foi feito com muito desconforto. Eu, lusa com super-ego católico, compreendi muito bem os alemães, coitados. Mas, na aula, uma colega americana referiu o contrário "o quão estúpido que é não declarar os falhanços! Como é que alguém pode não deixar de o fazer".
É claro que também existem os mal-educadinhos. Mas em menor quantidade. Aqui, reza o mito, ser bom naquilo que se faz é ser tudo.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
2009
Adiar paga-se caro.
Não que não tenha gostado de passar a passagem de ano num táxi, a caminho de casa, com o Jossan, jordanês emigrado nos states, é só que... hum, podia ter sido algo mais.
O meu companheiro de viagem estava farto dos alegres clientes que pediam boleia na downtown de pittsburgh e por isso resolveu vir pescar pessoas no aeroporto.
Apanhou-me a mim.
Depois de um voo de 15 horas, que implicou (tentar) estar acordada durante cerca de um dia e 3 conecções de aviões, formei a seguinte resolução de Ano Novo: marcar viagens de avião com dois meses de antecedência. No mínimo.
Fui de Lisboa para Nova Yorque, e de NYC para Houston para ir para Pittsburgh. Que é como quem diz, vim de Nova Yorque para o Porto, para ir para Copenhaga para voltar a Lisboa. É a vida dos atrasados despachadinhos.
O primeiro avião foi fácil.
O segundo avião foi agonizantemente lento.
No terceiro avião acordei estremunhada sem saber se ia ou voltava de Lisboa.
E depois cheguei e tive que carregar a mala.
Que era pequenina mas gordinha, tinha comido todos os livros possíveis. Com a pressa e a angústia de perder os aviões nas escalas, fiz uma mala maneirinha que não tinha que ir para o porão. Não era preciso. Ao passar pela imigração vazia de Nova Yorque pensei "Bolas, tanta rapidez, bem que podia ter trazido o bacalhau". Fica para a próxima.
E o vosso ano novo, como foi?
Não que não tenha gostado de passar a passagem de ano num táxi, a caminho de casa, com o Jossan, jordanês emigrado nos states, é só que... hum, podia ter sido algo mais.
O meu companheiro de viagem estava farto dos alegres clientes que pediam boleia na downtown de pittsburgh e por isso resolveu vir pescar pessoas no aeroporto.
Apanhou-me a mim.
Depois de um voo de 15 horas, que implicou (tentar) estar acordada durante cerca de um dia e 3 conecções de aviões, formei a seguinte resolução de Ano Novo: marcar viagens de avião com dois meses de antecedência. No mínimo.
Fui de Lisboa para Nova Yorque, e de NYC para Houston para ir para Pittsburgh. Que é como quem diz, vim de Nova Yorque para o Porto, para ir para Copenhaga para voltar a Lisboa. É a vida dos atrasados despachadinhos.
O primeiro avião foi fácil.
O segundo avião foi agonizantemente lento.
No terceiro avião acordei estremunhada sem saber se ia ou voltava de Lisboa.
E depois cheguei e tive que carregar a mala.
Que era pequenina mas gordinha, tinha comido todos os livros possíveis. Com a pressa e a angústia de perder os aviões nas escalas, fiz uma mala maneirinha que não tinha que ir para o porão. Não era preciso. Ao passar pela imigração vazia de Nova Yorque pensei "Bolas, tanta rapidez, bem que podia ter trazido o bacalhau". Fica para a próxima.
E o vosso ano novo, como foi?
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