quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

10 surprising mexican sights

1. Exército na rua. Não sei porquê, nas ruas da Cidade do México veêm-se camiões carregados de soldados. Até vi tanques no meio do tráfico, (penso que) devido ao dia da Independência que se aproxima...

2. Cor. Apesar do caos, a Cidade do México pareceu-me insolitamente colorida, tipo manta de retalhos feita de tecidos velhos e fortes. A cor estava também nas faces das mexicanas, que se maquilham artisticamente. No Museu de Antropologia percebi que a tradição garrida vem de longe: as ruínas Aztecas são fortemente coloridas.

3. Milho. O milho está para o México como o trigo está para Portugal, que é como quem diz, o pão mexicano é a tortilha. E a palavra portuguesa sandes deve ter a traduação de quesadilha. O culto do milho vem de longe, desde os povos ameríndios.

4. Alegria. (tomem em conta o exagero de uma turista que esteve no México menos de meio mês). Parece-me que a cultura mexicana pende para a alegria como a portuguesa pende para a tristeza e seriedade. Posso não perceber as letras de músicas tradicionais, mas parece-me tudo alegre (de mariachis aos ritmos latinos mais conhecidos). No meio de um cemitério mexicano vi uma pepsi aberta perto de uma campa (é tradição celebrar a morte de um ente querido com ofertas). Foi-me um bocado difícil entender isto. Não é que não se esteja triste ou menos feliz, é como se a resposta adquirida às situações experenciadas fosse a alegria e a leveza. É um bocado esquisito, é como se se os pequenos dramas da vida não existissem e se dissipassem em risadas... (E para os grandes existe pepsi.)

5. Política no feminino. Acabaram de haver eleições municipais (?) no México, e portanto havia uma data de cartazes políticos espalhados pela cidade. Epá, e tive uma sensação estranha: havia imensas mulheres a concorrer, quase tantas como homens. Não sei como explicar esta sensação de paridade num país onde viver é difícil e mais se se fôr mulher.

6. Dança. Fui ao teatro ver danças mexicanas (não sei que nome dar a esta mezcla de flamengo com cor, alegria e cultura ameríndia, por isso chamo danças mexicanas. No México chama-se Ballet Folclórico Amália Hernandez). Parece-me que foi a experiência de dança mais intensa que tive até hoje. Adorei. As danças simbolizavam partes da história do México (desde os aztecas, até a danças de casamento e baile, passando pela revolução e uma dança simbolizando a caça de um veado). Eram feitas de vitalidade, força, e alegria. As cores e os trajes mexicanos também dançavam, e às vezes viam-se figuras de borboletas feitas de tecido no palco. Era tudo simples e forte e bonito, e a música punha-nos um sorriso nos lábios.

7. Borboletas no topo da pirâmide do Sol, em Teotihuacan (era o Amor...).

domingo, 16 de Agosto de 2009

Viva México

Ainda leêm este blog?
Ou estará este blog já irremediavelmente perdido na imensidão da internet?

Este post agora não é sobre os US, é sobre o México.
É verdade, vim à Cidade do México. Duas vezes este Verão. Fui às pirâmides, andei na baixa, andei de metro, andei de carro pelos subúrbios, fui ao cinema, fui ao museu e à universidade (UNAM) mais prestigiada do México (assim me dizem, pelo menos). Ah, e provei a comida mexicana, gafanhotos (dois), ovos de formiga, larvas do cacto que dá tequillas, fruta selvagem de cacto (tuna) e outra fruta cor de rosa exótica cujo nome não me lembro. E claro, salsas, guacamole, quesadillas.
Nem sei por onde começar.

A comida é óptima. Adorei. Amei. A comida mexicana combina os meus ingredientes favoritos da portuguesa (alho, coentros,tomate, ervas) com uma herança exótica Azteca.
Existem vendedores ambulante de todo o tipo nas estradas. Vendem tunas, milho cozido com chili, frutas, gelados (bulubulu?), tamale. Mas, numa cidade onde a água da torneira não é potável, confesso que não me aventurei muito por este tipo de snacks.

A herança ameríndia está por todo o lado. Nos nomes das ruas, com muitos tês e éles, emigrados da língua Nahuatl. No Xamã que encontrei na praça principal da cidade do México. Mas, sobretudo, nas pessoas. A maior parte das pessoas tem fisionimia índia. Pequenos, morenos, e com maçãs do rosto salientes.

(Nota: não percebo muito bem porque é que no Brasil não se veêm tantos índios - ou pelo menos quem lá esteve disse-me que a fisionomia das pessoas está entre o caucasiano e o mulato. Não sei se isto não contradirá a "conveniente" teoria lusa que os portugueses foram muito menos agressivos que os espanhóis com os povos nativos.)

Quinhentos anos depois da "Conquista" os índios são os pobres, os brancos são os ricos. Num dos bairros mais ricos da cidade, só vi brancos. Nos subúrbios da Cidade do México só vi índios.

A cidade do México tem vinte e dois milhões de pessoas. Isso é duas vezes a população do nosso país. Não é uma cidade bonita como Paris ou ordenada. É uma cidade colorida e caótica, feita de casas encavalitadas em cima de casas. De favelas em cima de favelas. O centro da cidade tem um toque hispânico evidente, construído em cima de pirâmides aztecas, um centro financeiro feito de arranha-céus, jardins e edifícios altos. Mas, quando se olha de um prédio alto, casas e casas é tudo o que a vista alcança.
Os subúrbios são feitos de favelas. Casebres cinzentos que alastram pelas montanhas. O sistema de transporte público é limitado. Aqui usam-se as peseras para ir para fora da cidade. As peseras não têm "paragens", param onde lhe fazem sinal, complicando ainda mais o trânsito. Que sim, é tão complexo e feito de engarrafamentos como temos ideia.
Há sempre carros. O perto é distante e demora tempo. A condução é feita de pequenos gestos, com tantos carros colados uns aos outros. A vida complica-se com o tempo que se demora a chegar a qualquer sítio (horas).

Estar no México fez-me compreender o que é ser Europeia, Portuguesa. Adivinho que uma população equivalente à população do nosso país viva em favelas (que a mim me parecem decadentes e pobres). Parte da população sobrevive com trabalhos menores (pôr gasolina, lavar carros, vender coisas nas ruas).
A pobreza aqui é uma pobreza diferente. Não é que os pobres que vi aqui não se possam ver em Portugal. Mas o número de pobres institucionaliza a pobreza. Como europeia, vivo num país e num continente onde a pobreza revolta, onde o governo tem que resolver problemas humanitários considerados graves. Aqui, o número de pobres aliado a corrupção estatal tornam a pobreza num algo que simplesmente existe, à espera de algo.

Não me leiam mal. Sempre pensei e continuo a pensar que parte do nosso dever enquanto cidadãos do mundo rico é tentar contribuir para uma sociedade mais justa. O que acontece é que temos uma noção de direitos individuais que é insustentável a fora do mundo ocidental. Eu tenho um sentimento que alguém tem sempre que fazer algo pelos pobres porque não devem haver pobres. Aqui, é como se o peso da realidade esmagasse essa noção. Existem tantos pobres que a solução imediata, o curto ou médio prazo é quase impossível.
O longo prazo torna-se ainda mais difícil quando se pensa que a literacia aqui é frágil, a corrupção galopante e este país tem problemas de segurança gritantes.
Os raptos são uma realidade. A polícia pratica o suborno. No outro dia, no cinema vi um casal escoltado por seguranças.

Mais uma vez, não me leiam mal. Não quero transmitir uma sensação de pessimismo generalizado e desistência. É só que, muito sinceramente, só percebi agora o que é ser rico a nível global. O viver numa sociedade onde posso confiar minimamente em instituições, onde posso escolher o que estudar, onde se espera que a morte de um anónimo seja cuidada e investigada. O viver numa sociedade que tem uma das moedas mais fortes a nível mundial.

Num país onde a pobreza é endémica, e as instituições são falíveis, a acção individual solitária é um pixel branco num quadro negro. Faltam soluções facilmente escaláveis a milhões e mesmo essas demorarão gerações a darem frutos.
Falta um sentimento de igualdade social que permita que milhões de pessoas queiram e saibam construir uma sociedade mais justa. Mais uma vez, a pobreza não existe solitária. A desigualdade aqui é gritante. Aposto que a variância de preços entre produtos de pobres (muito mais baratos que no mundo ocidental) e produtos de ricos (com portáteis que aqui se vendem ao dobro do preço dos EUA, já para não falar de artigos de luxo) é muito maior que no nosso país. E, se existe mercado, existe procura...

E, apesar de tudo, na minha amostra enviesada de pessoas mexicanas que conheci, encontro uma leveza de espírito, uma alegria não amargurada que contrasta com um certo negrume lusitano. E as favelas têm enfeites de festa.

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Valkyrie

Isto não tem nada (ou pouco) a ver com a américa mas ontem vi o Valkyrie, um filme com o Tom Cruise sobre a última tentativa para assassinar Hitler.
Comecei um bocado desconfiada porque não gosto de ver montagens de Hollywood sobre histórias que se passaram fora da América. Parece-me que é uma maneira ilusória de recordar a história. Acabamos por armazenar memórias que, inconscientemente, nos dão a sensação de um passado e um globo homogéneo. Apagam a verdadeira história de diversidades, de radicais formas de viver a vida, de diferentes formas de sentir o tempo e o espaço, porque transladam para o passado e para ilhas desertas as presentes ilusões ocidentais.
Além disso, não gosto de ver filmes que já sei que acabam mal (por isso demorei anos a ver o Titanic).
Mas, depois de ter visto o filme, hollywoodesco sim, dramático sim, fiquei contente de o ter visto.

Para quem não sabe, o filme retrata a história do Coronel Stauffenberg, que pôs uma bomba na sala de reuniões de Hitler e tentou mudar o curso da história. Já tinha visto um documentário na 2 sobre esta tentativa, a minha memória confirma que isto é verídico. Em todo o caso, como sabem, Hitler não morreu (nessa altura). Staufferg sim, foi executado.
O filme testemunha um punhado de homens, que, no lado errado das coisas, conseguiu perceber o que era correcto. Na altura, foram desprezados por pessoas que seriam executadas meses depois, na sequência da derrota. Mas anos depois, um nazi tem que esconder a sua identidade e a história recorda estes traidores como heróis.
Hollywood é apenas mais um tributo.

quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Life for loan

Uma coisa que aprendemos desde que somos pequeninos e a gerir a guita, massa, ou carcanhol. Imitamos, interiorizamos (por muito que nos custe admitir) os modelos mais proximos, eufemismo para papas. Mas aquilo que sempre me pareceu muito racional dado que envolve numeros e, as vezes, folhas de excel, parece-me agora reflexo de uma maneira de pensar o dinheiro.

Porque o dinheiro, na america, pensa-se de maneira diferente que o dinheiro europeu.
A diferenca e o credito.
Aqui o credito conta como dinheiro.

Ha um sketch do saturday night live em que um pseudo-professor ensina um casal de americanos a gerir dinheiro. O mote e: "If you don't have money, don't buy it!". Primeiro pensei que o sketch fosse exagerado, pouco criativo, sensaborao e sem piada.
Mas depois vi uma entrevista na CNN a uma mulher que, em 3 anos, pagou 46.000 dolares de divida as companhias de credito. Ela sempre tinha sido ensidada que, desde que conseguisse pagar as televisoes e carros a prestacoes, estava ok. Bastou uma doenca para as prestacoes se atrasarem e a divida acumular. (E, presume-se, ela perceber que nao era assim tao ok ter a vida a prestacoes).
Este caso saiu na CNN porque e um caso de sucesso. Raro. Porque todos os outros, aqueles que foram ensinados como esta senhora, mas que nao conseguem ter tres trabalhos sem fins de semana (aquilo pelo qual ela passou durante 3 anos) vao parar a associacoes como esta: Devedores anonimos.

O credito aqui e uma segunda natureza. Um americano de classe media era assediado com toneladas de credit card applications, daquelas que dizem 0 juros em parragonas, mas que, em letras pequenas, mostram taxas variaveis a volta de 25-30%. Eu vi (com os meus olhos que a terra ha-de comer) estes golpes publicitarios. E eu, uma engenheira a tirar um doutoramento, nao consegui determinar qual a taxa de juro exacta que se aplicava a mim. Mesmo lendo com esforco as letras pequeninas.

E, depois de avaliar a enormidade de credit applications com que um americano era assediado, percebi finalmente que, epa, a crise economica nao e assim tao surpreendente. Apesar de nao conseguir compreender todos os detalhes da questao, aquilo que percebo e: rebentou-se a bolha de produtos financeiros feitos a partir de produtos financeiros feitos a partir de produtos financeiros de alto risco (ie, baseados em pessoas que nao conseguiam pagar) e foi um ver se te havias, uma derrocada financeira tipo domino.

Uma questao lateral e este conceito da vida a prestacoes. Pagar 100$ agora adiantado e ter que pagar entre 1/4 e 1/3 a uma companhia que financia um estilo de vida insustentavel. Uma familia de classe media estar amarrada a uma aparencia futil enquanto a riqueza real 'e pouca ou nenhuma e esvai-se como areia por entre televisoes e carros novos (porque a america esta cheia de carros novos, grandes e luzidios). E o mesmo conceito por detras de todos os sistemas de classes. O esforco de uma classe sustentou os de sangue azul, os mais nobres, e, agora, os mais espertos.

A mobilidade social nao e assim tao movel, afinal. A educacao de massas tem funcionado como equalizador social, a pouco e pouco, claro, como sao todos os processos geracionais, mas a ilusao de uma sociedade meritocratica e mantida sobretudo por umas quantas estatisticas improvaveis chamadas Bill Gates.

E aquilo que ainda e mais estranho, e como e tao natural tudo isto. Meter a vida a prestacoes para ter a casa cheia de coisas.

PS: ha pouco tempo o Obama mandou fazer um novo regulamento para companhias de credito. Segundo me disseram, o regulamento regula a fonte, o tamanho da fonte e a legibilidade de panfletos que divulgam credito. So para perceberem o quao tragi-comica era a situacao. Artigo do Wall Street Journal.

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

The fat of the land II

Uma coisa que se ve muito aqui na America sao pessoas gordas. Obesos gordissimos que - desculpem a franqueza - surpreendem o europeu incauto. Este e um pais em que - estatisticas oficiais (acreditem em mim) - 1/3 da populacao e overweight e 1/3 e obeso. Isto e, so uma em cada 3 pessoas tem o peso dito saudavel (e desses tem que se descontar os anorecticos).

Quando digo gordo dispam-se dos limites mentais que encontraram nas ruas de Lisboa. Nao estamos aqui a falar da normal variancia da bochecha do rabo humano. Trata-se antes do fenomeno volta-e-meia-nao-me-posso-sentar-no-autocarro-por-causa-d@-gord@-que-ocupa-dois-lugares. As vezes dou por mim a pensar quantas pessoas normais existiriam no espaco ocupado por um gordo.

E que, desculpem o grafismo, nao e so a gordura. E, as vezes, muitas vezes, vezes demais, se adivinharam as pregas flacidas de gordura por entre os vincos da T-shirt. Familias em que toda a gente e grande demais, flacida demais, larga demais. Interrogo-me como e viver assim, disforme, pesado e ondulante.
(Veio-me agora a cabeca o Homer Simpson. Lembram-se da largura da cintura dele ser muito maior que o resto do corpo? E essa a caracteristica fundamental dos overweight americanos - muita massa acumulada na barriga.)

Isto irrita-me. E irrita-me de varias maneiras.

Primeiro, porque era tao simples acabar com o assunto. Tao simples e claro e obvio. Numa estacao de gasolina perdida no meio duma estrada americana, a coca-cola e mais barata que agua. Nos supermercados mais acessiveis do meio da cidade, fruta e vegetais frescos sao carissimos. Duas alfaces (cada uma a 2$) dao para comprar uma refeicao no MacDonalds. Bastavam medidas relativamente simples como proibir refrigerantes e taxar fast-food para alterar o preco relativo destes bens, para eles se tornarem menos atractivos.

Aqui gordura e sinal de pobreza. Na cidade onde vivo isto e tao real que se pode estimar o estrato social de um determinado suburbio pelo numero de (muito) gordos que se ve nas ruas. Na minha universidade, claro, nao se ve ninguem obeso (ok, talvez um ou dois). E triste. Os pobres sao aqueles que comem o lixo barato.

Mas isto tambem demonstra o quao media e average e a raca humana. Desculpem a amargura. A verdade e que existem, sim, opcoes aos precos altos. Apesar do supermercado mais acessivel ser carissimo, a cidade tem um mercado caracteristico em que vegetais e frutas sao vendidos a precos muito mais baixos. Existem outras grandes superficies com precos mais competitivos. Existe o mercado ocasional bio-local. Feijao, grao, tomate enlatados sao baratos em todo o lado. Isto e, tirando o peixe (que, de facto, e dificil de encontrar - estamos a 8horas do mar alto) nao me parece que se possa argumentar que, em absoluto, aqui nao se encontra nada de jeito. Mesmo que seja um pouco mais caro, isso em nada altera o argumento. Lembrem-se que nao estamos a falar de pessoas que se comerem menos passam a fome africana.
A obesidade e evitavel.

O que acontece aqui e que, a par deste problema economico, as cadeias de fast-food estao por todo lado, nas ruas e dentro de casas, onde entram pela televisao adentro. No pais dos XXXL os anuncios louvam a quantidade de comida que pode comer por pouco dinheiro. E a fast-food e, em si, parte do american way of life. Comer, aqui, e algo que se faz rapidamente, como como quem nao quer a coisa, enquanto persigo o american dream. Comer e um pormenor. (Um colega meu americano inclusive disse-me que entre escolher perder tempo a fazer comida ou trabalhar, muitas pessoas nem sequer perdiam tempo para pensar).

E, claro, comer e facil.

E que, as vezes, este problema todo irrita-me porque me parece tambem um sinal de um tipo de cultura tecnologica que, no seu pior, transforma e deixa transformar o ser humano num objecto manipulador de maquinas, sem alma nem vontade. Um ambiente de "deixe a maquina fazer por si" que, no seu pior, se traduz nma inercia colectiva e individual em processar o ambiente em vez de comer apaticamente lixo televisado.

E claro que muito mais havia a dizer. Este e um problema cuja raiz esta afinal na organizao da nossa sociedade. Desde a revolucao industrial que a massa laboral se tem deslocado progressivamente para os servicos, enquanto sectores vitais como a agricultura foram esquecidos. A progressiva busca de lucro atraves de produtos novos, racoes que alimentam uma populacao stressada sem tempo para cuidar de si, resulta em pacotes caloricos artificiais, rapidos de preparar e ingerir, mas de diminuto valor nutricional.

Enfim...
Vamos a ver como a europa resiste as tentacoes do progresso. Entretanto, deixo-vos com duas perolas:
> um concurso chamado "the biggest loser" que e um reality show/ concurso para ver quem perde mais peso - concurso
> um artigo do new york times sobre a fraca seguranca alimentar dos US - artigo

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

América, américa

Uma das coisas que gosto aqui da américa, é que não há só um pouco de tudo, cada pouco berra à sua maneira no espaço público, onde tudo é possível. É assim um individualismo cacofónico e colorido, tolerante e racista, com as suas armadilhas para loosers e prémios para winners, onde o mercado é rei e a pessoa "the ultimate entrepreneur".

Existem muitos heróis. Existem muitos psicopatas.
Ricos, muito ricos, pobres, e intocáveis.
E budistas reconvertidos enamorados com a New Age, accept you as you are, convivem com brutos matadores de bebés.

Não sei se isto será um resultado da lei dos grandes números. Afinal a América é mais um continente que um país.
E, entre tantos aviões, um tem que aterrar na água, fazendo do seu capitão um herói. Da mesma forma, cada geração tem o seu provável número de psicopatas. Num mercado de milhões, uns têm que enriquecer de uma maneira estatísticamente improvável, ao mesmo tempo que outros empobrevem.
Muitas destas improbabilidades estão na origem de grandes empreendimentos americanos. No século XIX Edison e Bell fundaram empresas que se tornariam na General Electric, onde Langmuir trabalhou e receberia o Nobel nos anos 20, e a AT&T, onde o transístor seria inventado nos anos 50 (o mesmo transístor que deu origem à indústria dos semi-condutores, Sillicon Valley, e ao PC, por onde a internet circula). A indústria automóvel americana, agora em declínio, começou com um punhado de empresas, de onde todos os outros fundadores de companhias de sucesso descenderiam.
(Uma breve nota: uma das melhores coisas em trabalhar em organização industrial em geral, e com o meu advisor em particular, é traçar as histórias de indústrias e eteceteras a alguns génios improváveis).

Por outro lado, esta cacofonia individualista pode ser explicada através dos mitos fundadores da américa. Com a boston tea party e tipos a fugir aos impostos, tentando fundar algo não supervisionado por um governo central, mas regulado pela vontade e esforço de cada um (sobretudo os mais ricos?).

Não sei, mas é interessante. Cada dia há escândalos sui-generis, com adeptos fervorosos dos dois lados. O último envolve uma miss e um juiz gay. O juiz perguntou à miss se concordava com o casamento de homossexuais, e ela disse que, desculpem, mas não senhora. Enquanto o juiz começou a colocar no blog que a miss era uma praia (em americano), liberais e conservadores muito ponderam sobre a miss, que agora está a pensar seguir uma carreira em política (no kidding). É claro que isto tem como pano de fundo a ongoing discussion sobre o casamento gay, passagem e despassagem de proposições e votações, e etcs que tais, mas é sobretudo o resultado de media histéricos com vontade de coisas grandes.

E a televisão americana é ainda melhor. Volta e meia descubro pérolas televisivas. No outro dia, entre canais, descobri um padre que protestava contra a feminização da igreja, em formato talk-show e com pessoas a aplaudir. Dizia ele que os casamentos não funcionavam porque as mulheres esperavam que os homens dessem porque sim ("o que é uma coisa feminina, porque as mulheres são dadoras natas") mas isto resultava, claro está, mal, porque os homens não dão porque sim, dão porque querem alguma coisa em troca. Inclusive Deus, nunca pediu aos homens para darem sem esperar nada em troca. Infelizmente, é claro que esta argumentação caótica não sobrevive ao debate (havia um "debate" e eu esperei para ver) e o padre limitou-se a repetir a argumentação vezes sem conta.
(O padre era casado - com uma mulher que compreendia as leis da doação/retribuição masculina - por isso calculo que não fosse católico).

E agora esta última. Não sei porquê, mas no país das armas, as pessoas preocupam-se muito com casamentos. Muitos dos meus colegas de doutoramento são casados. E parece-me que o síndrome da mulher solteira é americano. Isto é, existe aqui uma classe de mulheres (mulheres, não homens, é a percepção) que quer casar, que não encontra o João Ratão, e para quem isto é muito problemático. Que algures entre o dating e o long-term relationship nunca encontrou "um homem que quisesse casar com ela" (sim, eu já ouvi esta expressão. Sad, but true.)
Não é só a questão de estar "sozinha", é, acima de tudo, um problema de identidade e validade enquanto ser humanos porque estas mulheres não se imaginam completas e dignas sem um casamento ou um homem a querer casar com elas.

Random thoughts...
E desculpem o meu português, que, não sei porquê, já me soa a esquisito.

terça-feira, 28 de Abril de 2009

The fat of the land

Ontem uma amiga do Dout. disse-me que viu uns chineses com máscara a vir para a escola. No Departamento de Engineering and Public Policy li um aviso que advertia constipados e tussidores de cuspo infectado a ficar em casa até passar a crise viral. Fizeram-me fwd de um e-mail oficial da CMU que dizia que ainda não havia casos na Pensylvannia mas que era preciso cuidado (e, já agora, informação útil, que o período de transmissão era um dia antes do infectado ficar doente e até sete dias depois).

No México morrem pessoas e os EUA os infectados continuam a crescer (agora já são cerca de 50, parece-me).

Dito isto, que a coisa parece séria, devo dizer que este clima caotico de sci-fi me irrita um bocado.
O mundo ocidental descobriu uma realidade assustadora: de repente, podemos morrer de doença, incontrolavelmente, irracionalmente, sem vacina. Nós, os inventores da ciência moderna, fomos despromovidos ao lugar que o resto do mundo ocupa. Uma criança morre de malária a cada 30 segundos (http://www.who.int/features/factfiles/malaria/en/index.html) e onde estão os seus retratos? Eles não existem. Uma multidão de bebés é menos real que a Maddie, porque a Maddie viveu numa casa como nós, era loira e adorada pelos pais. Por muitos filmes que vejamos, não conseguimos imaginar viver numa cabana, comer arroz, e ir fazer xixi ao lago. Não ter água diariamente. Não ter internet, ou facebook, ou messenger.

Uma colega minha aqui das social sciences estudou isto. A caridade e a empatia aumentam quando o espectador consegue identificar e relacionar (pelo menos emocionalmente) com a vítima. Estamos programados para pequenas calamidades, para o bebé perdido, o homem com a doença incurável, a pessoa que conhecemos ou imaginamos conhecer, mas a tragédia ilude-nos porque é abstracta e longe demais.
A não ser quando nos imaginamos como vítimas, acrescento eu (quantos oubreaks de cólera, tuberculose, maríola, não ignorámos já nós?).

Enfim, é claro que isto é um desabafo inútil (e cínico, afinal). A morte dos pobres não justifica indiferença perante a possível morte de muitos ricos, ou mesmo a morte de alguns. Mas a verdade é que a vida de ricos nos faz esquecer a morte dos pobres, todos os dias.